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18.3.08

Dançando no Escuro

Escrever logo após uma primeira visão de DANÇANDO NO ESCURO é escrever em estado de choque. Um filme que, ao terminar, deixa o espectador sem fala, suscita mais do que a análise e, antes dela, a tentativa de ordenar e consolidar o que aconteceu e o que se percebeu, para saber por que o impacto é tamanho.

São muitas as entradas possíveis no filme de Lars von Trier, muitas as camadas de sentido que ressoam; porém talvez convenha começar pela impressão mais saliente: sente-se que se trata de um filme-limite numa época-limite. Como se o passado, o presente e o futuro do cinema convergissem numa obra para encenar a paixão do homem do século 20 - e o modo como o cinema pode contribuir para redimi-lo. Como se a visão da nossa época e na nossa época, mas também como se a cegueira dela e a nossa, fossem inseparáveis da experiência do cinema e só pudessem ser apreendidas no escuro de uma sala, diante de uma tela em que imagens e sons elaboram a crise e o renascimento dessa arte enquanto crise e renascimento do homem contemporâneo.

DANÇANDO NO ESCURO nos co-move não só por causa de seu enredo ou mesmo do modo como Trier filma um melodrama; não só pela interpretação de Björk, que atualiza, sem no entanto procurar imitá-la, a Joana d'Arc de Falconetti, na obra-prima de Dreyer; nem pelo magistral emprego da tecnologia digital, que permite a Trier imprimir às imagens e à trilha sonora ritmos e tratamentos diferenciados, fazendo-nos passar da vida ao sonho e novamente à vida de modo nunca visto.

DANÇANDO NO ESCURO nos co-move porque nele alguém se sacrifica no presente para que a geração futura possa ver. Essa é, no meu entender, a questão fundamental tratada por Trier. Como lidar com a cegueira que progressivamente toma conta de nós? Como fazer para que nosso legado não seja uma herança negativa, mas a possibilidade de recuperação da visão? Como aceitar o sofrimento agora para que o outro seja salvo no futuro? Como saber morrer para libertar o outro da condição que o aprisiona e compromete? Como salvar-se por meio da salvação do outro?

Spoiler Rating: 78
LBC Rating: ~

Por Laymert Garcia dos Santos

6.3.08

A Sombra do Vampiro

A SOMBRA DO VAMPIRO deve agradar os cinéfilos mais nostalgicos. Trata-se de uma fita de baixo orçamento (Nicolas Cage assina como co-produtor), mas extremamente inventiva e original, brincando com algumas figuras lendárias da História do Cinema e que deu vários prêmios e até indicação para o Oscar para Willen Dafoe, que tem um grande momento de sua carreira fazendo o papel do ator Max Schrek.

O argumento é realmente interessante e se baseia nos bastidores da filmagem de NOSFERATU, de F. Murnau, feito durante o Expressionismo Alemão em 1922 e estrelado por um certo ator chamado Max Schreck. Segundo esta fita, o diretor Murnau encontrou Schreck e o utilizou sabendo que ele realmente é um vampiro e seu amor pelo cinema era tão intenso, ou tão doentio, que o deixou realmente atacar de verdade seus parceiros de filmagem.

Quem faz Murnau com toda a ambigüidade necessária (ele era assumidamente homossexual) é John Malkovich, que agora vive na Europa e está ficando cada vez mais interessante como figura e ator. Mas é Dafoe quem constrói uma imagem memorável, com ajuda de maquiagem, imitando a composição original do filme. Em 1979, Werner Herzog chegou a fazer um Nosferatu imitando Murnau. Com Klaus Kinski no papel central. Mas não chega a se comparar com este filme muito mais modesto, mas superinteressante.

Também procurando reproduzir os planos e cenas do original, mas sempre sem esquecer o senso de humor, ele mistura lenda, fantasia, terror, ao mesmo tempo em que tem um visual muito particular e diferente. Denotando uma extraordinária paixão pelo cinema por parte do diretor desconhecido para nós (a fita passou na Quinzena dos Realizadores de Cannes 2000, mas só foi descoberta mais tarde).

Só para ninguém ficar na dúvida, o verdadeiro Schreck não era vampiro, apenas um obscuro ator de teatro, que fez outras fitas imemoráveis, tudo é ficção mesmo. Porém feita com tanta verdade, de forma tão interessante, que a gente acaba acreditando. Mérito sem dúvida de uma brilhante performance de Dafoe. Repito: não é fita para grandes platéias, mas para cinéfilos mais até do que fãs adolescentes de terror.

Spoiler Rating: 80
LBC Rating: ~

Por Rubens Ewald Filho

9.2.08

Os Infiltrados


Em OS INFILTRADOS, Scorsese trabalha com uma história dupla: Collin Sullivan (Matt Damon) é um informante do chefão da Máfia de Boston, Costello (Jack Nicholson), infiltrado na polícia. De outro lado, Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) vê-se em situação inversa. Forja-se um crime que justificaria a sua expulsão da polícia e, logo em seguida, ele se vê integrado à gangue. Na verdade, é um informante da polícia, plantado junto a Costello. Os Infiltrados é, portanto, uma história de lealdades e traições. De agentes duplos que têm de fingir ser o contrário do que são. Mas que, fingindo, descobrem que os dois extremos curiosamente se tocam, e em mais de um ponto.

A estratégia de Scorsese não é dizer que não existem fronteiras entre a lei e o crime, posição tão niilista quanto simplificadora. Mas é discutir onde estão os limites entre um domínio e outro e por que motivo eles parecem se interpenetrar mais de uma vez. Por outro lado, existe um substrato que costuma borrar e confundir essas fronteiras móveis - a violência que aparece na base de formação da sociedade americana, talvez mais do que em outras. Esse tema, que aparecia com tanta clareza em Gangues de Nova York (e talvez uma das fraquezas deste filme estaria em explicitá-lo tanto), é lido aqui nas ações cotidianas dos seus personagens. A certa altura, alguém diz: 'Neste país parece que todos se odeiam' e com esta frase define-se o espírito da coisa.

Scorsese não precisa fazer sociologia, ou mesmo buscar explicações muito profundas para entender que, quando se elege a competição como motor principal da vida em sociedade, a violência surge como decorrência natural. Aceitando-se um termo da equação será preciso aceitar outro. Isso sabemos. O grande cinema, como o de Scorsese, tem o dom de dramatizar a constatação óbvia. Torná-la narrativamente convincente e emocionalmente impactante.

Spoiler Rating: 91
LBC Rating: ~

Crash


Alguns podem dizer que esta produção traz alguns resquícios de MAGNÓLIA (1999), elogiado filme de Paul Thomas Anderson, o que é bem verdade. Mas CRASH, com seus personagens transpirando conflitos, questionando dogmas, ética e moral, tem irreverência e qualidade de sobra para andar com as próprias pernas sem ser comparado com qualquer outro filme.

A questão do racismo é complexa e sua abordagem no filme pode soar agressiva em primeira instância, mas é analisada com um realismo e coragem impressionantes, somando mais pontos a CRASH, seja junto aos negros americanos, como os latinos ou árabes - principalmente após os fatos acontecidos após 11 de setembro. O preconceito acaba sendo um tema incessantemente abordado durante toda a película, que marca a estréia do canadense Paul Haggis - roteirista do premiado MENINA DE OURO (2004) - na direção.

Haggis trabalha com esperteza a insegurança e o olhar superficial que se tem ao viver em uma metrópole como Los Angeles. A história, escrita pelo diretor em parceria com Bobby Moresco, não mostra um retrato maniqueísta da realidade. Não há culpados, nem vítimas: todos estão à mercê do medo e da imprevisibilidade. O cineasta usa a superficialidade das relações na era moderna para despejar personagens em busca de sentidos e emoções, nem que para isso seja preciso um violento esbarrão no trânsito.

A narrativa começa em um desses acidentes de trânsito. A partir daí, são mostradas as 36 horas que antecedem o momento da tragédia. Entram no contexto do enredo Jean (Sandra Bullock), uma dona de casa egocêntrica, e seu marido Rick (Brandan Fraser), um influente promotor público; Graham (Don Cheadle) e Ria (Jennifer Esposito), um casal de detetives avessos à corrupção; o renomado diretor de televisão Cameron (Terrance Howard) e Christine (Thandie Newton), sua esposa; Daniel (Michael Pena), um chaveiro mexicano; Farhad (Shaun Toub), um lojista persa desmiolado; Peter (Larenz Tate) e Anthony (Chris "Ludracris" Bridges), dois ladrões de carros da periferia; e Tom Hansen (Ryan Phillippe), um policial novato aprendendo as lições da rua com Ryan (Matt Dillon), um veterano racista. Suas histórias são entrelaçadas em uma montagem flexível e empolgante.

A atuação do elenco é excelente, representando convincentemente os papéis difíceis reservados, desde os atores menos conhecidos até os medalhões como Sandra Bullock, Brendan Fraser, Matt Dillon, Ryan Phillippe e Don Cheadle. Afinal, não são apresentados protagonistas. Todos os personagens são obrigados a integrar e interpretar o balaio da discórdia.

Um brilhante debut de Paul Haggis, fazendo muito com pouco orçamento (US$ 6,5 milhões), CRASH entra seguramente, e com folga, na lista de melhores filmes de 2005.

Spoiler Rating: 88
LBC Rating: 48

Menina de Ouro


Não sou especial admirador de Clint Eastwood como diretor, faço restrições a muitos de seus filmes que parecem ter sido feitos às pressas, de forma descuidada e com muitas cenas escuras. Mesmo SOBRE MENINOS E LOBOS não achei nada de especial, apesar do delírio da crítica americana. Pois agora eles elogiaram mais ainda este MENINA DE OURO, indicado a sete Oscar e vencedor de 4: Melhor Filme, Diretor, Atriz (Hilary Swank) e Ator Coadjuvante (Morgan Freeman).

MENINA DE OURO é até um filme relativamente pequeno e modesto. Como a maior parte da crítica, não vou contar toda a história e estragar a surpresa do enredo. Basta dizer que não é uma versão feminina de ROCKY. É um filme pesado, humano, trágico e, por isso mesmo, possivelmente o que Eastwood fez de melhor em toda sua longa carreira.

Aqui, a discrição, sua marca registrada, é muito bem-vinda e eleva o filme para algo mais do que uma mera história de boxe feminino.

Já houve uns poucos outros filmes sobre o tema, mas o bom de MENINA DE OURO é que tudo é feito com a maior dignidade, sem demagogia, sensacionalismo ou exageros.

Eastwood faz um velho treinador - muito envelhecido, também melhor ator do que nunca - que, com relutância, aceita treinar uma garota ambiciosa, Hilary Swank, que depois do Oscar de MENINOS NÃO CHORAM finalmente voltou a acertar; não está nem mesmo masculinizada demais. Ele é ajudado por outro veterano, que se torna o narrador da história, Morgan Freeman, num papel que pode lhe render o Oscar de ator coadjuvante.

Juntos eles se tornam amigos e fazem uma boa carreira até chegar a vencer o campeonato. E mais não digo. Basta ressaltar como se evita o dramalhão, como no conflito com a família vulgar e pobre, que deseja apenas se aproveitar da boxeadora e quer ficar com o dinheiro, sem ao menos disfarçar a desaprovação pela escolha dela.

E a amizade do velho com a moça é feita com muita ternura e delicadeza. O único problema que vejo no filme é comercial, já que parece ser "filme de homem", quando na verdade é "de mulher"; Precisou mesmo dos prêmios para ser mais bem vendido e apreciado. E também merece o prestígio que conseguiu.

Spoiler Rating: 90
LBC Rating: 83

O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei


Quando nos foi apresentado a visão de Peter Jackson para a Terra Média e os acontecimentos de O SENHOR DOS ANÉIS: A SOCIEDADE DO ANEL; Ficamos fascinados... Assistimos à perfeição com que foram reproduzidas a casa de Bilbo e a festa de seu aniversário, assim como entristecemos com a exclusão do trecho sobre Tom Bombadil.

Em AS DUAS TORRES, comprovamos que o diretor sabe muito bem como fazer cenas de guerra, apesar de contermos a risada com algumas habilidades exageradas de Legolas, como "surfar" em um escudo.

Agora, no último e maior dos filmes (com três horas e 20 minutos!), descobre-se que este é o menos cansativo da trilogia e, principalmente: O melhor dos três. Pudera... Nele, tudo se conclui, mantendo o público ligado à tela. E a expectativa, para quem leu o filme, reflete-se em como o diretor conduziu o final da história, tão conhecido sob a pena de Tolkien.

Em se tratando de adaptações, o que era esperado aconteceu. Saruman foi excluído dO RETORNO DO REI, mas as brechas foram bem preenchidas e o vilão não faz falta para quem não conhece o texto original. Aos leitores do livro, leves contorções na cadeira foram previstas, mas nada que os impeça de se maravilharem com a obra, ainda mais porque as soluções dadas para essa e outras partes eliminadas foram palpáveis.

Assim como os dois primeiros, este mantém o primor em direção de arte, de fotografia e de som, efeitos visuais e especiais, que renderam muitas referências e prêmios aos seus antecessores. Destaque para a transfiguração de Frodo, muito mais desgastado pelo fardo que carrega e pelo difícil caminho nas terras de Mordor.

Sem dúvida, os pontos altos são os das batalhas, principalmente as realizadas nos campos do Pelennor. Com muita ação e ótima condução de câmera, nos leva lado-a-lado aos combatentes em meio à luta, em seqüências de tirar o fôlego.

Os cortes que intercalam a jornada de Frodo com a dos outros heróis estão mais suavesdo que os do segundo filme, não deixando o público furioso com interrupções em momentos decisivos.

Após três anos, a versão para os cinemas ainda impressiona pela perfeição com que reproduz Minas Tirith e suas cidadelas. Não incomoda tanto a liberdade tomada pelo roteiro ao transformar e retirar ou acrescentar trechos na história, com modificações que deram certo, acompanhadas de outras talvez não tão necessárias.

O sucesso dO SENHOR DOS ANÉIS em condições tão adversas (basta se ver a quantidade de erros e fracassos que Hollywood produz a cada ano), adaptando uma obra tão difícil e monumental, é realmente algo a ser louvado e celebrado. Tanto que certamente os fãs, antigos e novos, ainda vão querer assistir às outras edições (por uns anos ainda teremos filhos dele, até um dia chegar a um único filme unindo os três episódios).

É curioso como se tem menos a dizer quando se gosta de um filme. Malhar é até mais fácil. De qualquer forma, O SENHOR DOS ANÉIS: O RETORNO DO REI é uma perfeita conclusão para uma grande trilogia.

Spoiler Rating: 95
LBC Rating: ~

Chicago


CHICAGO seguiu MOULIN ROUGE na revitalização dos musicais. Não é tão radical nem tão ousado quanto MOULIN ROUGE. E por isso fez mais sucesso e escandalizou menos. Francamente, tirando MOULIN ROUGE, que é um caso a parte, é um dos melhores musicais em muitos anos, talvez desde CABARET.

A referência ao filme de Bob Fosse é proposital, já que foi ele quem criou a montagem original nos anos 1970 com Chita Rivera (surpresa, ela faz uma pequena pontinha na fita como homenagem a única sobrevivente do original) e Gwen Verdon (que era a Sra. Fosse na época). Não foi um grande sucesso nem fracasso, apenas médio na época, talvez porque as pessoas não estivessem preparadas para entender o que era basicamente uma sátira ao sistema judicial americano (é bom lembrar que, por sua vez, o musical CHICAGO, composto por Ebb e Kander, a mesma dupla que criou CABARET, foi inspirado num filme chamado ROXIE HART, do começo dos anos 1940, de William Wellman, com Ginger Rogers.

Qualquer um que conhece melhor a cultura americana sabe muito bem que tudo nela é show. Aparência, performance, competição e nunca substância, conteúdo. No sistema judiciário, a palhaçada é ainda mais chocante. Claro que o filme, embora trate de coisas sérias, não tem pretensões de pregar moral. É tudo na base da ironia, ao mostrar como a jovem Roxie (Renée Zellweger) mata o amante que a enganava e vai para a cadeia, onde fica aprendendo que é preciso ter um bom advogado (e procura então o melhor deles, o mais vigarista, feito por Richard Gere) e se dar bem com a carcereira (Queen Latifah, ótima, que pelo papel concorreu ao Globo de Ouro e ao Oscar).

Em Chicago, na década de 30, tudo é uma questão de cair no gosto da imprensa, que promove a criminosa como se fosse uma estrela. Foi o caso de Velma (Catherine Zeta Jones), que matou a irmã que a traía com o marido e naquele momento é a sensação da imprensa. Mas Velma perde seu momento quando chega Roxie e aprende, depressa, com a ajuda de seu marido transparente (John C . Reilly, outro grande ator, fazendo aqui a canção "Mr. Cellophane"). Claro que a fama corre o risco de acabar quando aparecer uma nova criminosa e uma outra novidade.

O filme tem um excelente roteiro de Bill Condon que acrescenta toques certos, aumentando o papel de Velma (que agora tem uma aparição surpresa no julgamento). Ela também diz uma frase genial, inédita, quando propõe uma parceria para Roxie e esta diz: "Mas eu te odeio!". Velma responde: "O show business é o único lugar onde isso não faz a menor diferença" - É, no show business e na política, faltou dizer.

Dirigido por um estreante, Rob Marshall (que era mais coreógrafo do que diretor na Broadway), o filme conseguiu resolver o problema de como transpor para a tela um show muito cantado e dançado, sem ficar chato. Ele simplesmente seguiu as lições de Fosse em CABARET: todas as canções ou sucedem num palco ou então são imaginárias, fantasiadas na cabeça de alguém, Ou seja, não-realistas. Ou comentam os fatos, ou os criticam, ou dão passagem para alguma situação. Portanto, nunca fica falso, fica inteligente. Ao sacar isso, Marshall finalmente conseguiu realizar o filme que estava há anos na geladeira como um projeto para Liza Minnelli e Goldie Hawn.

Spoiler Rating: 93
LBC Rating: ~

Uma Mente Brilhante


UMA MENTE BRILHANTE é um drama que tem justamente a cara de “filme que ganha Oscar”. Levou o Globo de Ouro de Melhor Filme, assim como os Oscars de Filme, Diretor (Ron Howard), Atriz Coadjuvante (Jennifer Connelly) e Roteiro Adaptado – e ainda indicado a Ator (Russel Crowe), Edição, Maquiagem e Trilha Musical.

Russel Crowe até merecia ganhar um novo Oscar, apesar de sua comprovada antipatia. Seu trabalho aqui é melhor que em GLADIADOR, compondo um tipo convincente, inteligente e misterioso. Ele interpreta John Forbes Nash Jr, cuja tese de Doutorado em Matemática, intitulada Nash Equilibrium, revolucionou o universo acadêmico com uma teoria que aplica jogos e relações de rivalidade na compreensão de questões econômicas complexas.

No enredo, depois de formular a sua tese, Nash passa a sofrer o assédio do serviço secreto norte-americano, ao mesmo tempo em que se envolve com Alicia (Jennifer Connelly). Apresentado ao misterioso agente William Parcher (Ed Harris), o matemático descobre que o seu dom de decifrar enigmas pode auxiliar no combate aos comunistas soviéticos. Arrogante – e brilhante – Nash entra no jogo, sem conhecer o risco real da empreitada.

O filme consegue envolver o espectador de tal maneira que entramos completamente na história e aceitamos o personagem. Quando temos a revelação do que seria a doença é um choque, mas também, como dizem os americanos, ''uma epifania'', ou seja, uma revelação, a chave para entender o filme.

UMA MENTE BRILHANTE certamente não é um grande filme. Mas é um bom filme que cumpre o que pretende. De forma limpa e extremamente competente. Seu Oscar não foi injustiça.

Spoiler Rating: 94
LBC Rating: ~

8.2.08

Gladiador


O que acontece quando se junta Steven Spielberg, Ridley Scott e muito dinheiro (US$ 103 milhões, para ser mais exato)? Resposta: GLADIADOR. Nas duas primeiras semanas em cartaz nos Estados Unidos, este épico de espadas e sandálias arrecadou mais de US$ 73,6 milhões.

O neozelandês Russell Crowe é o ator principal, interpretando Maximus Decimus Meridias, um general do exército romano muito querido pelos seus soldados, respeitado por seu povo e amado pelo seu Imperador, Marcus Aurelios (Richard Harris). Tudo o que ele queria era voltar para casa após a sangrenta batalha na Germânia. Porém, César - já muito velho e doente -, tem outros planos e o quer como novo governante do Império Romano. Quem não gosta nada da idéia é Commodus (Joaquin Phoenix), filho do Imperador, que mata seu pai para poder assumir o trono. Seu primeiro ato como novo César é mandar matar Maximus e sua amada esposa e filho.

Numa das inúmeras batalhas com espadas (todas muito bem coreografadas por Nicholas Powell, de CORAÇÃO VALENTE), o ex-general consegue escapar e começa o regresso ao seu lar. Ao chegar lá, encontra sua propriedade destruída e sua família morta. O cansaço da viagem somado aos ferimentos das batalhas fazem Maximus desmaiar e só acordar quando já é um escravo. Proximo (Oliver Reed), mercador e dono de um pequeno "ringue", compra-o para que lute como gladiador. Grande estrategista e guerreiro, o "Espanhol", apelido com o qual Maximus passa a ser chamado, destaca-se dos demais e ganha a chance de combater no Coliseu de Roma.

Os "jogos" tinham sido proibidos por Marcus Aurelius cinco anos antes, mas seu filho retomou a estratégia de satisfazer a população com "pão e circo". O Coliseu que se vê na telona custou US$ 1 milhão e poderia ser ainda mais caro, não fosse a computação gráfica utilizada. Através dos efeitos especiais foram "construídos" três dos cinco andares do circo romano, e os dois mil figurantes transformaram-se em 33 mil pessoas lotando o palco das sangrentas batalhas.

GLADIADOR traz de volta, com méritos, os filmes sobre a era romana. Ridley Scott conseguiu remontar uma cidade e uma época como poucos poderiam fazer. Crowe está muito bem no papel principal e a bela Connie Nielsen (Lucilla - irmã de Commodus) dá o toque feminino que coroa as belíssimas cenas do extinto Império Romano. Seguindo a onda, novos filmes com sandálias, espadas, togas e batalhas pintaram por aí.

Spoiler Rating: 82
LBC Rating: ~

16.1.08

Alien Vs. Predador

Quando uma distribuidora, como a 20th Century Fox lança um filme antes mesmo de promover sessões especiais para críticos de cinema, é porque o filme é provavelmente uma bomba.

ALIEN VS PREDADOR não é pior do que a maioria dos filmes de ação descerebrados lançados no verão americano. E a fita até que tem consistentes qualidades formais graças ao seu diretor, Paul W.S. Anderson.

Por favor não confundam esse Anderson com outro de nome parecido, o Paul Thomas Anderson de MAGNÓLIA e SANGUE NEGRO. Já o Paul W.S. Anderson é um talentoso criador de atmosferas claustrofóbicas, cuja sina infeliz foi ter adaptado pelo menos dois filmes a partir de video games - MORTAL KOMBAT (1995) e RESIDENT EVIL (2002). Também existe um video game chamado "Alien vs. Predator", mas esse aparentemente tem pouco a ver com o projeto cinematográfico, que na verdade se propõe a ser simultaneamente o prólogo de ALIEN (1979) e seqüência para PREDADOR (1986).

Esse conceito de um encontro entre duas principais "franquias de monstro" da Fox já circulava pelos escritórios de criação há uma década, até que Anderson embarcou no projeto. A razão mais provável para essa demora foi que ninguém conseguia resolver um problemão inerente ao conceito: numa batalha entre Aliens que explodem caixas torácicas humanas e Predadores que fatiam cérebros, será que o espectador realmente vai conseguir torcer para um dos dois lados?

Anderson também não conseguiu resolver o problema, embora tenha elaborado em torno dessa questão um filme bonito, com clima soturno e elegante. ALIEN VS PREDADOR não é ambientado no espaço sideral, mas num mundo a la Julio Verne que existe sob a superfície do planeta, onde se esconde uma pirâmide extraordinariamente antiga. A pirâmide está enterrada a cerca de 600 metros, abaixo da calota polar da Antártida.

Descoberta pelo industrial bilionário Charles Bishop Weyland (vivido pelo ator Lance Henriksen, que em 1986 atuou na seqüência "Aliens, o Resgate", dirigida por James Cameron), a pirâmide se torna o motivo de uma expedição formada por renomados cientistas e mercenários, semelhante à do célebre desbravador Shackleton. O bilionário Weyland contrata uma guia ecológica, Alexa Woods (Sanaa Lathan), para conduzir seu grupo em direção ao templo enterrado. Só que lá no fundo da terra vive uma gigantesca mamãe Alien, e falta pouco tempo para ela parir seu adorável filhote.

Enquanto o bando vai percorrendo os serpenteantes corredores do mundo subterrâneo (numa espécie de clichê do mundo dos video games, embora os cenários lembrem na verdade os mundos underground do cineasta expressionista alemão Fritz Lang), fica evidente que os humanos não têm idéia do que poderá acontecer. Os Aliens foram gerados com características que os tornam alvos de um novo grupo de Predadores,que precisam se engalfinhar para matar os monstros alienígenas, inimigos mais perigosos de sua espécie.

Os humanos não têm muito o que fazer no filme. Entre eles estão um arqueólogo interpretado pelo ator italiano Raoul Bova, e um geólogo vivido por Ewan Bremner, ator escocês especializado em composições minuciosas. De qualquer forma, os personagens humanos servem para colocar o filme em movimento, mas logo passam à segundo plano, observando o que acontece, posição precária que acaba atingindo a maioria deles. Embora Anderson mantenha o interesse pelo filme, é de maneira muito absurda, até mesmo para os padrões de filmes sobre monstros fantásticos. Resultado- ALIEN VS PREDADOR se transforma num delírio, numa verdadeira extravaganza de efeitos especiais, um tanto gelado mas de vez em quando impressionante.

E entre o derramamento de sangue verde-escuro reluzente dos Predadores e aquela eca toda das mucosas borrachudas dos Aliens, certamente se encontra um filme muito pegajoso, embora definitivamente não muito assustador ou memorável.

Spoiler Rating: 52
LBC Rating: ~

8.1.08

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

Arrasado ao descobrir que sua namorada, Clementine, pagou a um médico para eliminá-lo das suas lembranças, Joel decide fazer o mesmo. Deitado em sua cama e inconsciente enquanto um técnico localiza suas memórias de Clementine e as apaga, Joel, porém, responde mal ao tratamento. Enquanto cada experiência que passou com a namorada ressurge e é brevemente revivida, há alguma parte dele que permanece alerta e se dá conta de que ele não vai se livrar apenas daquilo que lhe causa dor: os bons momentos estão escoando pelo ralo junto com os momentos ruins - e até esses, afinal, ele gostaria de preservar.

Em seu desespero, Joel tenta esconder Clementine em partes do seu cérebro que o técnico não mapeou. Ele a leva para as humilhações da adolescência e para as confusões da infância, correndo com Clementine por entre o labirinto daquilo que ele foi antes de conhecê-la, com o técnico sempre em seu encalço. Quanto mais imaterial a namorada se torna, maior sua certeza de que ele está cometendo um erro terrível: com ou sem Clementine ao seu lado, Joel precisa que ela exista. BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS tem as marcas de seu roteirista, o Charlie Kaufman de QUERO SER JOHN MALKOVICH, ADAPTAÇÃO e CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA - um protagonista perdido no interior de sua própria cabeça, a ausência de delimitações entre o real e o surreal e, principalmente, o descaso pelas regras comumente aceitas sobre as complicações que a platéia é capaz de acompanhar.

Complicações não faltam em BRILHO ETERNO, mas a clareza com que Kaufman navega entre elas é testemunho da qualidade de sua escrita. Graças a ela, ao seu senso de humor e às ótimas interpretações de Jim Carrey e Kate Winslet, como o derrotista Joel e a impulsiva Clementine, o filme consegue apelar ao mesmo tempo à inteligência e aos sentimentos, e ser simultaneamente ficção científica e romance. Quanto mais Kaufman avança em seu trabalho, porém, mais seus quebra-cabeças deixam de parecer brincadeiras, e mais se constituem em buscas. Na história deslavadamente romântica que é o pretexto de BRILHO ETERNO, Joel atravessa toda uma vida de memórias para proteger Clementine da erradicação e ser capaz de se lembrar, ao acordar, de que a amou - e que a amaria de novo. No desenrolar lógico do roteiro, porém, o que de mais importante Joel encontra é a si mesmo, nas mais diferentes versões (e nos lugares e situações mais improváveis, graças ao talento do diretor Michel Gondry para traduzir visualmente os cenários criados pelo roteirista nessa viagem pela memória). Ser, portanto, é lembrar.

Não é difícil enxergar em BRILHO ETERNO uma espécie de manifesto a favor da autodescoberta tortuosa e dolorosa da psicanálise, e contra a felicidade química amplamente acessível das drogas da geração Prozac. Tirar o fio aos sentimentos e anestesiá-los, defende Kaufman, é tirar também da mente algo de sua capacidade de criar. Não por acaso, o roteirista foi buscar o título de seu filme no poema Eloisa to Abelard, do inglês Alexander Pope (1688-1744) - mais especificamente da parte em que Heloísa, lamentando o fim trágico de seu romance com Abelardo, diz que, antes que a alma de um amante recupere sua paz, ela terá de amar, odiar, ressentir-se, arrepender-se e dissimular. Tudo, diz Heloísa, menos esquecer. Joel e Kaufman, com certeza, concordam com ela

Spoiler Rating: 91
LBC Rating: ~

Peixe Grande

Que bom que Hollywood ainda pode se dar ao luxo de financiar filmes para Tim Burton. Eles não dão muito dinheiro mas são prestigiados, indicados a prêmios, ainda que nunca ganhem. E são basicamente diferentes. Curiosos. Interessantes. E nunca inteiramente bem sucedidos.

Pois tudo isso se repete de novo com PEIXE GRANDE, produzido por Richard Zanuck com um visual menos obviamente autoral de Burton. Talvez porque o filme seja seu primeiro trabalho depois daquela terrível concessão ao comercialismo que foi sua versão de O PLANETA DOS MACACOS.

Edward Bloom (o genial Albert Finney na versão atual e Ewan McGregor na juventude) não se cansa de contar histórias fantásticas sobre um peixe gigante que ele pegou quando jovem ou sobre o nascimento do filho, William (Billy Crudup). Exausto por não saber a verdade sobre o pai, e constrangido por conseqüência, Will cresce e se distancia de vez do "mentiroso". Ao saber que Bloom Sênior está doente, o jovem volta para tentar descobrir o que há por trás dos contos sobre grandalhões comedores de ovelhas, bruxas que prevêem a morte, cidades assombradas, assaltos a bancos e, principalmente, sobre a relação de Ed e a esposa (Jessica Lange, de volta às telas, ainda linda e talentosa). Alternando fantasia e realidade, comédia e dramaticidade, Burton constrói um mosaico de personagens fantásticos que você torce para serem reais.

Os atores estão em sincronia e o texto sobre a relação de pais e filho faz qualquer um sair da sala querendo marcar um churrasco com a família. O visual espetacular e quase sem nenhuma intromissão de CGI mescla com perfeição na melhor trilha de Danny Elfman desde EDWARD MÃOS-DE-TESOURA. Não é preciso ser gênio para descobrir o que vai acontecer no final, mas garanto que isso não servirá de nada quando o nó na garganta estiver se formando.

Spoiler Rating: 88
LBC Rating: ~

Por Rubens Ewald Filho

4.1.08

Maria Antonieta

Trata-se de um revival da rainha francesa que entrou para a história com a alcunha de "A Austríaca". A jovem Marie Antoinette chegou a Paris como cereja do bolo que deveria sacramentar a união entre a França e a Áustria, seu país de origem. No filme de Sofia Coppola, quando isso ocorre ela é uma adolescente despreparada para o papel de rainha, que deveria desempenhar ao lado de Luís XVI.

Há uma série de livros e ensaios que reavaliam o papel da rainha na história francesa. Há uma frase célebre que lhe é atribuída. Na fase pré-Revolução Francesa, os parisienses passavam fome e pediam pão, enquanto a corte vivia extravagantemente. A rainha teria dito - "Se eles não têm pão, que comam brioches." No filme, Sofia Coppola a absolve - "Imaginem se eu ia dizer uma idiotice dessas", reclama Maria Antonieta. O filme integrou a competição do Festival de Cannes. Sofia chegou à Croisette vitoriosa. Cahiers du Cinéma lhe deu capa e a classificação de obra-prima. Mas a maioria da crítica caiu matando sobre ela.

Barbie Antoinette, French Confection. A Maria Antonieta de Sofia talvez tenha mais a ver com a diretora do que com a personagem histórica. Como Scarlett Johanssen no filme anterior de Sofia, ela vive "lost in translation". De cara, o marido não consuma a união. O filme levanta a suspeita de que Luís teve ajuda para manter a linhagem. A vida na corte é uma frivolidade só. Maria Antonieta é um pouco uma patricinha em Versalhes, com o detalhe da música dos anos 80, quando Sofia, princesa de Hollywood (filha do rei Coppola), era adolescente. Mas essa menina um tanto voluntariosa se revela mãe e esposa exemplares. À fuga, prefere a morte na guilhotina, ao lado do marido. Sofia pode ser crítica em relação a Maria Antonieta, mas lhe devolve a grandeza.

Spoiler Rating: 75
LBC Rating: 72

Cold Mountain

COLD MOUNTAIN é mais um filme impecável de Anthony Minghella e sua equipe, que deve ser hoje em dia a melhor do mundo: o compositor Gabriel Yared, o diretor de arte Dante Ferretti, o fotógrafo John Seale, a figurinista Ann Roth. Todos fazem trabalhos excepcionais nesta superprodução de US$ 80 milhões da Miramax.

Mas não foi indicado ao OSCAR de melhor filme porque é uma história de amor fria, que não provoca lágrimas, nem suficiente emoção. É um bom filme, muito bem feito, muito bem interpretado, um pouco triste, um pouco amargo (afinal fala sobre os absurdos da Guerra Civil americana, principalmente o que sofreram os civis e os soldados que tentavam voltar para casa, na mão de milícias que se diziam justiceiras). Há alguns momentos espetaculares, dignos de serem vistos e prestigiados, até mesmo de ganharem indicações. Mas não há muito como lhe premiar.

Não li o livro de Charles Frazier que lhe deu origem, mas sei que não tinha a aparência de resultar numa fita comercial e fácil. A obra foi adaptado por Minghella que é uma das pessoas mais sensíveis e gentis de Hollywood.

O filme se passa numa cidade da Carolina do Sul chamada Montanha Gelada (as locações, por economia, foram na Transilvânia, Romênia). Lá, uma bela jovem (Nicole Kidman), filha de um pregador (Donald Sutherland), se apaixona por um rapaz local (Jude Law). Quando vem a guerra, ele vai lutar e só pensa em voltar para ela, que fica na miséria e acaba sendo salva pela ajuda de uma mulher sem destino, que vira sua empregada (Renée Zellwegger, que tem chanches como coadjuvante).

Enquanto isso, Jude passa pelo inferno, escapando da morte várias vezes, encontrando figuras bizarras no caminho, um pregador desonesto (Philip Seymour Hoffman), uma benzedeira (Eilleen Atkins), uma jovem viúva que lhe oferece cama (Natalie Portman), um traidor (Giovanni Ribisi). Sem contar que ele enfrenta também algumas batalhas (numa delas, os nortistas provocam uma explosão que cava um enorme buraco, mas eles é que acabam presos nessa armadilha).

É um grande épico romântico, meio DR. JIVAGO, onde o clímax não é o reencontro do casal (que sucede vinte minutos antes do final). E o prazer é se ver, numa história bem contada, um elenco fotogênico e bonito (não ha duvida que faz bem aos olhos contemplar Jude e Nicole, certamente o casal mais bonito e competente do ano). Só não tenho certeza se queria ouvi-la ou se ela acrescenta alguma coisa que já não saibamos sobre a natureza humana ou a passagem inevitável do tempo. De qualquer forma, não é um fracasso, o que já é muito. Mas também não é o grande filme que se esperava.

Spoiler Rating: 86
LBC Rating: ~

2.1.08

Encontros e Desencontros

O declínio das comédias românticas no cinema vive seu auge. Meg Ryan deixou de lado sua eterna aborrecência para tentar papéis sérios. Freddie Prinze Jr., Sarah Michelle Gellar e outros totens teens sofreram fracassos após fracassos antes de entender que não podem ser levados a sério. O momento é bom para mostrar para os antiquados produtores hollywoodianos que não são apenas valores e costumes que se transformam ao longo dos tempos. O amor também muda e muito. Alguns cineastas (Kevin Smith, Richard Linklater) perceberam isso há algum tempo, mas foi preciso uma Coppola para ensinar o bê-a-bá dos relacionamentos modernos. ENCONTROS E DESENCONTROS (LOST IN TRANSLATION) é a mais bela e emocionante comédia romântica do nosso tempo e só precisa de um leve beijo na boca para isso.

Por mais que Sofia Coppola se esforce, é improvável que algum dia alguém esqueça que a diretora e roteirista é filha de Francis Ford Coppola (O PODEROSO CHEFÃO). Mas não há como negar que ela vem criando seu próprio espaço e que há um salto considerável entre AS VIRGENS SUICIDAS, seu longa de estréia, e ENCONTROS E DESENCONTROS, que trouxe na bagagem diversos prêmios internacionais.

Nada mal para um filme assumidamente pequeno, discreto e ecônomico. Bill Murray é um ator veterano que viaja para Tóquio para fazer um comercial de uísque e embolsar alguns milhões. Scarlet Johansson acompanha o marido numa de suas inúmeras tours no Japão, fotografando bandas de rock. Bill tem uma mulher perdulária, dois filhos chatos, uma mansão e a angústia de chegar a uma certa idade e ter perdido a felicidade no meio do caminho. Scarlett é linda, tem um companheiro que diz "eu te amo" cada vez que sai porta afora, dinheiro apesar da idade e a angústia de ser jovem e não ter encontrado sua própria felicidade. Ela é o possível passado dele. Mas ambos se encontram no luxuoso hotel da capital nipônica e as duas gerações encontram um amor tão puro e essencial que nem mesmo pode ser maculado pelo sexo.

Apesar do título cretino, ENCONTROS E DESENCONTROS é muito mais sensível do que deixa transparecer. Sofia consegue arrancar da dupla de atores uma interpretação única, que só vai se repetir quando os planetas do sistema solar se alinharem outra vez: Bill Murray entrega o papel de sua vida e nem precisa falar muito. Até mesmo na hora de fazer rir (as tentativas de comunicação com os japoneses são simplesmente hilariantes), ele sai de seu mundo interior e surpreende. Esses momentos servem para tornar o filme atemporal e atraente para qualquer geração. Mas aqueles que sentirem um nó na garganta ao ouvir "Just Like Honey", do Jesus & Mary Chain, ao final do filme, vão entender sua beleza. Quem ficar boiando pode alugar CASABLANCA outra vez. Não há vergonha nisso.

Spoiler Rating: 87
LBC Rating: ~

28.12.07

Pequena Miss Sunshine

PEQUENA MISS SUNSHINE é uma história banal, mas bem contada, com um roteiro com toques de originalidade (e sem fios soltos) e um elenco em que todos os atores estão nos personagens certos. Olive (a miniatriz Abigail Breslin), a caçula da família Hoover, foi classificada e quer concorrer ao concurso do título, uma aberração norte-americana que coloca meninas maquiadas e vestidas como mulheres num simulacro com tintas pedófilas dos concursos de miss de verdade.

Está claro desde o início que ela será uma marginal na competição, no momento em que Olive e sua família vão sendo apresentados: o pai (Greg Kinnear), um escritor fracassado de auto-ajuda; a mãe (Toni Collette), uma dona-de-casa com um subemprego; o avô (Alan Arkin), viciado em heroína e criador da apresentação da neta, que o adora; o tio (Steve Carell, hilariante), que acaba de tentar suicídio porque seu namorado o deixou pelo expert número 1 em Proust no país -Carell é o número 2-; e o irmão (Paul Dano), fã de Nietzsche, que decidiu parar de falar por um ano em homenagem ao filósofo alemão.

Embarcam todos numa Kombi laranja-amarelada (ou amarelo-alaranjada) em direção ao concurso. Durante a "road trip", o veículo se tornará um sétimo e importante personagem, um fator de agregação, dessa turma nada funcional. Chegarão ao destino uma família menor, mas mais unida.

Spoiler Rating: 94
LBC Rating: 70

Por Sérgio Dávila - Folha de São Paulo

C.R.A.Z.Y

Depois das enormes bilheterias no Canadá, C.R.A.Z.Y. continuou seu sucesso no mercado independente mundial. O filme ganhou vários prêmios em festivais e deu prestígio ao diretor Jean-Marc Vallée. Ele já está sendo visto como um possível candidato a fazer parte do seleto hall dos atuais cineastas canadenses mais relevantes, como David Cronenberg, Denys Arcand e Guy Maddin.

O filme se inicia em 25 de dezembro de 1960, quando Zachary Beaulieu (atores Emile Vallée como criança e Marc-André Grondin como o adolescente) vem ao mundo. É o quarto entre cinco irmãos, todos meninos, cujas iniciais formam a palavra "crazy" (louco). O filme acompanha os 20 primeiros anos da vida de Zachary. A infância é marcada pelos aniversários natalinos em que seu pai (Michel Côté), invariavelmente, encerra a festa imitando Charles Aznavour. Sua a adolescência traz descoberta de uma sexualidade diferente e sua negação profunda para não decepcionar a família. E a maturidade, enfim, chega com uma libertadora viagem mística por Jerusalém, a cidade que sua mãe (Danielle Proulx) sempre sonhou conhecer.

O projeto levou dez anos para ficar pronto. O roteiro foi escrito por Vallée e François Boulay, baseado nos diários de Boulay. O argumento também conta com passagens da vida pessoal do diretor. Especialmente as cenas da mãe devota e do pai apaixonado por música. Mesmo tendo sido escrito das experiências da dupla, o contexto será reconhecido por qualquer pessoa pertencente a uma família numerosa. E mesmo com essa premissa o filme não cai no melodrama. A história mistura de forma inteligente o sagrado e o profano, o pessoal e o universal. Interessante que o tema não se concentra na descoberta sexual, mas sim sobre o amor.

Os pais não são retratados como vilões, mas como duas almas compassivas e honestas que realmente querem o melhor para seus filhos. São bons pais, em outras palavras, personagens críveis. Mas o tratamento para com os personagens não foi igual para todos. Vallée negligencia dois dos irmãos, que nem parecem estar no filme, já que surgem e somem na mesma rapidez.

Mas isso não impediu de Vallée destilar toda a sua habilidade técnica para contar mais de 20 anos de história. Truques cinematográficos aumentam a carga dramática das cenas. Ele utiliza close-ups, ângulos diferenciados, slow-motion e charme nas imagens de pessoas fumando. A cenografia de Patrice Bricault-Vermette se encaixa perfeitamente à proposta visual. Tudo isso embalado por uma trilha sonora apaixonante com as músicas de Patsy Cline, David Bowie, Pink Floyd, Rolling Stones, Charles Aznavour e The Cure, entre outras feras.

O resultado retrata com dignidade as habituais dúvidas que surgem na adolescência.

Spoiler Rating: 86
LBC Rating: 70

Por Mário Abbade - Omelete

A Última Noite

O anjo interpretado por Virginia Madsen em A ÚLTIMA NOITE (A PRAIRIE HOME COMPANION), filme de Robert Altman, está ali para sublinhar que não é apenas um outrora popular programa de rádio que chega ao fim. O tema de fundo é a morte, ainda que em versão mais terna e suave.

No sentido estrito, alguns personagens vão mesmo encontrá-la ao final. Mas, simbolicamente, celebra-se também o funeral de um período na história do rádio (e, por extensão, do entretenimento de massas), era romântica em que valores nobres se sobrepunham à frieza contábil guiada somente pela busca da ampliação das margens de rentabilidade.

Mundo hostil e frustrante para quem trabalha com arte, como os músicos que se apresentam pela última vez no programa de rádio cujos bastidores são bisbilhotados pela câmera sinuosa de Altman. A melancolia no ar lança a dúvida: a morte não seria uma alternativa mais razoável do que a sobrevivência nesses tempos bicudos?

Alguém ali será agraciado pelo anjo com esse prêmio, saindo de cena em grande estilo. Os demais precisarão enfrentar o dia seguinte e, com ele, um dilema que agora já não preocupa mais Altman: lutar para manter a integridade, artística e pessoal, diante de condições pouco favoráveis a ela, ou reconhecer o desajuste e se aposentar?

A trama é mera desculpa para um desfile de talentos, que cantam um pout-porri da Country Music e falam, falam e falam, muitas vezes de improviso. Tudo capturado pela inquieta câmera, que não parece querer disfarçar que está ali, e montado fantasticamente (parece até que o filme acontece em tempo real) por Jacob Craycroft.

Embalado por canções tristes, A ÚLTIMA NOITE equivale, todo ele, à lenta execução de uma balada saudosista, com rompantes bem-humorados, mas de essência sombria, em torno da inevitabilidade (e da proximidade) da morte.

Spoiler Rating: 85
LBC Rating: 70

O Labirinto do Fauno

O LABIRINTO DO FAUNO é com certeza um dos melhores filmes de 2006. O cineasta Guillermo Del Toro apresenta uma fábula sombria recheada de metáforas e alegorias. Além de ser puro entretenimento, o longa também é uma ótima refeição mental para os cinéfilos e amantes da literatura fantástica. É fácil encontrar referências a filmes como O ILUMINADO, A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA, O MÁGICO DE OZ, HELLBOY (do próprio Del Toro) e livros como ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS e as fábulas de Hans Christian Andersen e dos Irmãos Grimm.

O filme abre com uma pequena narração sobre uma princesa que abandonou seu reino subterrâneo para conhecer a realidade humana e as conseqüências de seu ato. Depois disso conhecemos Ofelia (Ivana Baquero), uma menina de 10 anos fascinada por livros de contos e fábulas com fadas. Ela está viajando junto com a sua mãe Carmen (Ariadne Gil) para o campo, onde vai encontrar seu padrasto, Vidal (Sergi Lopez). Ele é o capitão das forças fascistas do general Franco, que governa a Espanha em favor dos ricos e poderosos com a aprovação da Igreja Católica. Logo de cara percebemos que Vidal é um homem extremamente sádico e que maltrata Ofelia.

Aos redor de sua nova casa, a menina encontra um labirinto que leva a uma trilha subterrânea. Lá ela conhece Pan (o mímico Doug Jones), um fauno (metade humano, metade bode) que a convence de que ela é a princesa perdida do reino subterrâneo e que precisa realizar três tarefas para retornar para seu reino. Ao mesmo tempo em que Ofelia embarca nessa viagem repleta de fantasia, Vidal não poupa esforços e sadismo para exterminar os rebeldes.

Realidade e fantasia se completam em um verdadeiro banquete de cenas e personagens inesquecíveis. Visualmente, o filme é soberbo. A cor é extremamente carregada de um sombreado que transforma a narrativa em um livro antigo de fábulas.

Inteligentemente, Del Toro transporta seu argumento para o campo. Cercado de florestas, o público se sente confortável em aceitar que possa existir por ali um universo mítico. Envolvendo este universo estão as duras cercas do mundo real, característica que também marca o trabalho de outros diretores fantásticos, como Tim Burton e Terry Gilliam. O único ingrediente diferente no filme de Del Toro são os toques surrealistas herdados do cineasta espanhol Luis Buñuel, outro que utilizou sua obra para criticar os fascistas.

Esse universo onírico e gótico é a espinha dorsal do filme. Del Toro não delimita o que é fantasia ou realidade. Ele aponta caminhos e deixa que o público embarque na viagem de sua preferência. Mesmo na conclusão, Del Toro contrasta os dois mundos. O espectador tem a possibilidade de escolher baseado em suas crenças pessoais. Quem não acredita em fadas, lendas e mitologia não se sentirá enganado. Otimistas que ainda vêem esperança no mundo caótico em que vivemos ficarão satisfeitos. E essa dualidade fica evidente na personalidade de Ofelia. Ela mostra que talvez a melhor maneira de escapar da realidade seja criando um mundo de fantasia.

Del Toro correlaciona seus personagens fabulescos com os de carne e osso. Nas tarefas, Ofelia é obrigada a enfrentar criaturas horripilantes. Impossível não associá-las à brutalidade de Vidal. Por mais aterrorizantes que sejam as aparências dos seres, fica a impressão de que os humanos são os verdadeiros vilões.

Fica evidente a diferença entre o mundo de Ofelia e o de Vidal. Ela acredita em sonhos e fantasia, sentimentos e características vitais para o desenvolvimento do ser humano. Vidal é um produto de mundo rígido e fascista. Sua ideologia é baseada na violência. Del Toro aproveita para analisar psicologicamente como homens dessa natureza são resultado de uma relação agressiva e abusiva dos seus pais.

Mas o debate não é só social, mas também político. Vidal não consegue ver nos rebeldes uma ameaça. Para ele, é uma questão de tempo para que todos sejam eliminados. Em A ESPINHA DO DIABO, Del Toro já tinha utilizado crianças para apresentar temas políticos como pano de fundo - a mesma guerra civil espanhola. Os dois filmes se completam em significado. E a mensagem de Del Toro não é sobre a perda da inocência, mas sim de como temos que nos abarcar a ela para conseguirmos sobreviver emocionalmente.

O elemento humano por trás dos comentários e mensagens de Del Toro reforçam ainda mais suas idéias. Todo o elenco está excelente. Mas quem chama a atenção é Sergi Lopez. Impossível desviar o olhar da tela quando ele aparece. Ele cria um vilão completamente odiável e se torna o ser mais asqueroso e repugnante, mesmo rodeado pelas criaturas mais estranhas possível.

Del Toro realizou todo seu filme com uma equipe basicamente mexicana, mas sem dispensar a máquina hollywoodiana. Ele, Alejandro Gonzáles Iñárritu e Alfonso Cuarón (também produtor do filme) são exemplos de cineastas que nunca deixaram de imprimir sua marca autoral em suas produções, mesmo com as amarras dos grandes estúdios. Coincidentemente, ou não, todos os três são produtos de um povo que até hoje é tratado com desprezo pelos norte-americanos. O preconceito está longe de acabar, mas o talento e o sucesso dos três é a melhor resposta.

Spoiler Rating: 86
LBC Rating: 80

Por Mario Abbade - Omelete

Caché

O título é apropriado. Em CACHÉ (escondido, em francês), o austríaco Michael Haneke - diretor de A PROFESSORA DE PIANO - conta a história de Georges (Daniel Auteil), um apresentador de TV que começa a receber vídeos anônimos em casa. A imagem do vídeo é sempre a mesma: uma tomada feita da rua que mostra a fachada da casa, pontuada por poucos movimentos de entrada e saída da família.

Não é só a câmera que está escondida. Aos poucos, Georges se dá conta de que o remetente pode ser alguém de um passado distante e também oculto, sobre o qual ele nunca conversou com a mulher (Juliette Binoche). Logo se descobre que a relação com o filho também não é das mais transparentes. Mais não se pode dizer para não estragar a surpresa.

A maestria de Haneke, que ganhou a Palma de melhor diretor em Cannes, consiste em trabalhar com planos fixos de longa duração e grande força, que permitem diversas interpretações. Os significados estão escondidos atrás da imagem, e cabe ao espectador descobri-los -ou, em muitos casos, simplesmente imaginá-los. Nada ganha uma conclusão definitiva, nem mesmo no final.

Mais uma vez, o diretor explora o lado sombrio da alma humana -aquele que provoca medo e angústia. Constrói uma espécie de intimismo negro. Com histórias verossímeis e nada fantásticas, apavora mais do que os filmes de terror, embora o suspense criado em sua obra esteja sempre mais próximo do drama. CACHÉ sonda os mistérios da culpa e do ressentimento, sentimentos destruidores que podem se esconder por trás até de atos esquecidos do passado. Um filme para cabeças frias e corações fortes.

Spoiler Rating: 87
LBC Rating: 83

Por Thiago Stivaletti - Folha de São Paulo
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