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6.12.07

Conduta de Risco



CONDUTA DE RISCO é o nome do filme do estreante Tony Gilroy. O diretor americano, de Nova York, pode não ser conhecido, apesar de ter escrito os roteiros dos três sucessos da série “Bourne”. Mas seu ator George Clooney, melhor a cada filme, todos conhecem. Coisas do star system...

Desta vez Tony Gilroy escreve e caprichou no roteiro do próprio filme. Americano quando quer mostrar cultura no cinema, faz homenagem aos seus filmes B, às produções baratas dos anos 40 e 50 que depois foram cultuados pelos franceses, batizados e reunidos sob a chancela de "film noir". Um dos ícones dos filmes "noir" era o fabuloso Humphrey Bogart, um ator que pensava em cena e fazia o espectador pensar com ele nem que fosse para resolver a charada de um crime banal. George Clooney, como um Humphrey Bogart repete o mito e sustenta o mistério de QUESTÃO DE HONRA até a cena final do filme.

CONDUTA DE RISCO fala de corrupção em uma grande corporação agroquímica. Como ninguém faz corrupção sozinho, a corporação conta com uma sofisticada rede de conivências. Menos de um advogado em crise, que cruza o caminho de seus interesses milionários. O advogado é escalado para abafar o aparente acesso de loucura de um ex-dirigente da corporação, mas com ele percorremos tortuosos caminhos fragmentados por uma bela narrativa em flashbacks. O filme é bom. Principalmente porque você sai dele e a vontade que dá é continuar o prazer com um velho filme ‘noir’ original, com ou sem Bogart.

Spoiler Rating: 88
LBC Rating: 66

Por Leon Cakoff (Mostra SP)

23.11.07

Viagem a Darjeeling


Wes Anderson volta a cantar a canção de uma família de excêntricos como em THE ROYAL TENENBAUMS, narrando a viagem de três irmãos pela Índia em busca da mãe, metida a monja (Anjelica Huston), e tratando de recuperar no caminho a irmandade perdida. Owen Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman são os três irmãos em questão, cujo ponto em comum é serem ligeiramente calados, paranóicos e pouco dotados para a vida social.

Eles embarcam em um trem ("O Expresso Darjeeling"), carregado de malas que vão perdendo pelo caminho, símbolo desses objetos supérfluos que os impedem de se concentrar em coisas importantes. E assim, despidos de preconceitos, apresentam o caos, a anarquia, a espiritualidade, a oração e a beleza.

Precedendo o filme, é exibido o curta "Hotel Chevalier", também dirigido por Wes Anderson e que traz no elenco Jason Schwartzman e Natalie Portman. O filme é como um prólogo para o longa. Vê-lo não é essencial para entender a história, mas ajuda a compreender detalhes do comportamento do personagem interpretado por Schwartman, que recebe a visita de uma ex-namorada em Paris.

Inventivo, irônico e original, o filme de Anderson é um verdadeiro oásis de bom humor em um festival carregado, até agora, de muitas tragédias humanas. É um choque entre o espírito vibrante e caótico da Índia com o ambiente saturado e claustrófobico do trem. No fim, VIAGEM A DARJEELING é um verdadeiro mosaico de cor e cultura, beleza e genuidade, pobreza e espiritualidade.

Spoiler Rating: 73
LBC Rating: 75

19.10.07

Cochochi


Selecionado pela mostra Orizzonti, do recente Festival de Veneza, COCHOCHI é o primeiro longa de dois novos diretores mexicanos, Laura Amélia Guzmán e Israel Cárdenas, o que o habilita a concorrer ao prêmio Bandeira Paulista, de melhor filme da 31ª Mostra. Não se admire se isso ocorrer. COCHOCHI é um filme produzido pela Canana, empresa criada pelos atores Gael García Bernal e Diego Luna para incentivar os talentos da nova geração do cinema do México.

COCHOCHI conta a história de dois garotos indígenas da Sierra Tarahumara, no noroeste do México. Os pais pedem que eles entreguem uma encomenda numa comunidade distante. Desobedecendo às ordens, eles vão no cavalo da família, que amarram numa árvore, quando a trilha se revela impossível de prosseguir com o animal. Na volta, começa a odisséia dos meninos, pois o cavalo sumiu. Só como efeito de comparação, pode-se citar o iraniano BALÃO BRANCO. Com economia de meios e um pé na riqueza etnográfica, Laura e Cárdenas construíram uma ficção bela, justa e verdadeira.

Spoiler Rating: 69
LBC Rating: ~

Da Agência Estado

8.9.07

12


Fiel ao seu estilo intenso e caloroso, Mikhalkov revisita em 12, o clássico de Sidney Lumet, DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA (1957). "Na verdade, o filme de Lumet, que admiro muito, funciona apenas como ponto de partida; é um remake a 13%", brinca o diretor russo.

E, de fato, permanece a situação original, um grupo de jurados reunido para decidir a sorte de um réu que parece ter tudo contra ele. Em 12, esses senhores, presididos pelo jurado vivido pelo próprio Mikhalkov, fecham-se na quadra de esportes de um ginásio. Tudo parece que vai ser resolvido rapidamente, pois as provas de que o adolescente checheno de fato matou seu padrasto por dinheiro são devastadoras. Está claro até demais, pelo menos até que um dos jurados, o único que não vota pela condenação, começa a falar. Ele conta uma história de si mesmo. A história de como um dia, no ponto mais baixo de sua vida, uma pessoa o escutou de maneira menos superficial e o compreendeu.

Em sua visão de humanista, Mikhalkov cita Dostoievski: “Ele afirmava que amar a humanidade é fácil, pois se trata de uma abstração; difícil é amar uma determinada pessoa entre outras.” Por isso, continua o diretor, seria um erro fazer de 12 um filme político, embora contenha alusão à guerra da Chechênia, uma permanente chaga na política externa do país. A idéia central seria naquilo que hoje existe de mais deficitário no mundo - a compaixão humana.

E, nesse sentido, 12 é bem-sucedido. Consegue provocar no público forte empatia em relação a um personagem. O centro do filme nem é o garoto checheno, mas a reação daqueles homens que se vêem na contingência de julgar uma pessoa, e assim entram em confronto consigo mesmos. E também com a própria história do seu país. Sim, porque de maneira indireta, pelas frestas das falas dos jurados, passam não apenas as contingências da vida pessoal de cada um, mas como elas são moduladas pela história de um país que sai de décadas de regime comunista para entrar numa economia selvagem de mercado.

12 é, assumidamente, um filme discursivo, centrado em elenco de magníficos atores (cada um tem direito ao seu solo) e com poucas imagens do mundo externo. Estas aparecem na forma de flash-backs, que tentam mostrar como foi a infância e adolescência daquele garoto que está sendo julgado com tanta pressa. É também um filme que se dá o tempo da emoção e da reflexão. Tempo - essa matéria-prima também em falta no mundo todo. “Nossos contatos com os outros estão se tornando mecânicos, não conversamos com as pessoas, não as olhamos nos olhos”, diz Mikhalkov. “Minha intenção foi apenas essa: ver como reagem 12 pessoas comuns quando devem, num espaço fechado, decidir o destino de outra que eles nem conhecem.” Discutindo, os jurados de Mikhalkov vão descobrindo que nem sabem quem é aquele rapaz; o que supõem saber sobre ele baseia-se em preconceitos e idéias banais. Desfazer esses estereótipos, ou pelo menos atenuá-los, é tarefa civilizatória. Pelo menos para quem ainda acredita que isso tenha algum valor.

Spoiler Rating: 92
LBC Rating: ~

Por Luiz Zanin Oricchio

6.9.07

As Faces de Rembrandt



O cineasta britânico Peter Greenaway disse, nesta quinta-feira, em Veneza que é um realizador "mainstream". "Se assim não fosse, como explicar as 30 milhões de pessoas em todo o mundo que viram O COZINHEIRO, O LADRÃO, SUA MULHER E O AMANTE? Não é uma cifra como de Spielberg ou de Scorsese, claro, mas é bem respeitável para a indústria do cinema e não tem muito a ver com o rótulo da produção independente", lembrou.

O diretor polêmico de filmes sempre extravagantes participa da competição com NIGHTWATCHING, uma espécie de cinebiografia tirada de registros variados, entre livros e documentos, do pintor e gravador holandês Rembrandt (1606-1669).

Não é exatamente uma produção que pode ser encaixada no cinema comercial reivindicado por Greenaway, a começar pela duração mais que necessária (são 134 minutos, mas parece mais), o objetivo ambicioso de acolher o personagem em várias faces e o excesso de personagens. São obstáculos que atrapalham uma idéia bem elaborada e que combina com a reconhecida estilização do cinema do diretor.

O ponto de partida é original e interessante. Trata-se do momento da realização da famosa tela The Night Watch, pintada em 1642, e exposta no Rijksmuseum, em Amsterdã. Comissionado por uma companhia militar, que desejava ver-se representada de forma clássica numa pintura de Rembrandt, o artista cria uma cena onde os soldados estão envolvidos num assassinato e outras situações pouco nobres.

A atitude revolta os personagens e o escândalo começa a arruinar a carreira do pintor, que aos poucos empobrece. "Para mim o que interessou antes de tudo foi o tipo sensacionalista de Rembrandt para a época, sua postura hollywoodiana, uma estrela que gostava de chamar atenção, ser paparicado; e como estrelas de hoje, tem seu auge e decadência", explicou o diretor.

Ele mesmo um pintor no inicio de carreira, Greenaway disse que a escolha da tela se deu pela curiosidade em saber mais de sua fama. "Uma pintura que foi vista e encantou Mussolini, Churchill, Stendhal e todos os líderes da Revolução Francesa deve ter algum mistério; e não apenas um, mas 51 mistérios já foram detectados na tela por especialistas".

Greenaway comparou sua opção de fazer um filme a partir de uma cena de crime com o filme BLOW UP - DEPOIS DAQUELE BEIJO, de Michelangelo Antonioni, em que um fotógrafo flagra por acaso um assassinato com sua câmera, e com as fotos de turistas que sem querer registraram os tiros que mataram John Kennedy. "São momentos em que a realidade, a arte estática de uma foto ou de uma pintura e o movimento que o cinema pode dar a essa material se encontram."

Spoiler Rating: 77
LBC Rating: ~

Orlando Margarido - Terra

Cristovão Colombo - O Enigma



Aos 98 anos e uma tradicional participação no Festival de Veneza, o português Manoel de Oliveira já não é um assunto que suscite grandes debates por aqui. Mas seus seguidores empenhados ocuparam metade de uma sala de 1,7 mil lugares para mais uma vez acompanhar um filme que não tem parâmetro e semelhança na produção atual.

CRISTOVÃO COLOMBO - O ENIGMA parte da idéia defendida pelo livro "Cristovão Colombo é Português" de que o descobridor teria mais raízes portuguesas do que se pensa, e em vez do nascimento oficial em Genova, teria nascido em Cuba - uma pequena cidade do Alentejo que teria originado o nome da ilha caribenha onde Colombo aportou um dia.

Oliveira cria uma proposta ficcional sobre dois irmãos portugueses que nos anos 40 emigram para os Estados Unidos, ajudando a criar ali uma comunidade lusitana. Um deles, vivido por Ricardo Trepa, neto de Oliveira, é um obcecado pela figura do navegador e, ao voltar a Portugal para se casar, parte com a mulher numa viagem de redescoberta dos lugares onde Colombro viveu.

O próprio Oliveira e sua mulher Maria Isabel de Oliveira interpretam o casal já na velhice e em visita a Nova York, onde também reencontram monumentos dedicados às raízes portuguesas. É um filme de testemunho do realizador sobre o heroísmo de Portugal durante as descobertas e o abandono de figuras históricas importantes e lugares que confirmam a grandeza de sua terra.

O filme dura 70 minutos e consegue discutir um assunto em profundidade. Os tempos são lentos, os planos duram o que precisam durar e ele promove a síntese do conjunto através de elipses poderosas. Grande Manoel, próximo do centenário e com a mente tão jovem e aberta. E, no Brasil, tantos velhos na faixa dos 20 ou 30 anos. Isso é mais triste que um fado da Amália Rodrigues.

Spoiler Rating: 82
LBC Rating: ~

Por Orlando Margarido (Terra) e Luiz Zanin Oricchio (Estado)

En la Ciudad de Sylvia


EN LA CIUDAD DE SYLVIA foi o filme mais autoral e exigente exibido em Veneza, e o público que ia se habituando aos gêneros e apelo fácil de Hollywood se mostrou atento e interessado na proposta de Guerin.

Num fio de trama, um jovem (Xavier Lafitte) volta à cidade francesa de Estrasburgo para reencontrar uma moça de nome Sylvia, que conheceu seis anos antes e por quem se apaixonou. Sempre com um caderno de desenhos em punho, ele se posta num café em que ela freqüentava e passa a procurar em volta, na fisionomia das clientes.

O jovem acredita vê-la numa bela jovem ali (Pilar Lopez Ayala) e a persegue pelas ruas numa longa caminhada. Embora com apenas dois protagonistas em cena, o diretor muitas vezes deixa sua câmera estática, perdendo de vista os personagens, para mostrar um pouco do cotidiano e da gente da cidade.

Quando volta para o casal é para mostrar longos closes que vão aos poucos criando ou tirando a ilusão de sucesso da empreitada. Não foi para poucos que ocorreu a influencia de Michelangelo Antonioni, morto em julho passado, especialmente pela trilogia formada por A AVENTURA, A NOITE e O ECLIPSE, na qual os personagens saem a caminhar a esmo.

Guerin confirmou em entrevista sua grande admiração pelo mestre italiano e a vocação natural de seu cinema em segui-lo. Mas também, nos longos silêncios e ruídos que todo o tempo marcam a tela, é possível lembrar o francês Robert Bresson, que como o diretor espanhol, gostava de tirar do rosto inerte dos atores a expressão necessária ao entendimento da alma humana.

Spoiler Rating: 78
LBC Rating: ~

Por Orlando Margarido - Terra

Andarilho


O que mais impressiona em ANDARILHO de Cao Guimarães é sua clarividência. É um filme racional, arquitetado, concreto. Joga com a ambivalência de sentidos. De um lado a fluidez da fotografia que dilui a paisagem dura das estradas, da luzes dos carros, do calor do sol, de outro a rigidez e a precisão do plano, estudado, desenhado, plástico, entrecortado para a existência daqueles personagens.

E estas dicotomias de sentido, sugeridas pelo filme, continuam nos momentos nos quais eles, os personagens, se revelam. Um deles (Gaúcho) é insano, desconstruído, loiro, carrega suas bagagem nas costas, fala com ares de inteligência e certa arrogância que se calam em hábitos inventados. O outro, Paulão, é metódico, negro, carrega seus pertences num carro que empurra pelas estradas, organizado, prepara sua refeição, acredita em Deus, não tem ares de louco, é calmo. O terceiro, Nercino, é maníaco, doente, repete palavrões a esmo, não parece estar conectado com nada que não seja seu próprio isolamento. Em comum, os três habitam as estradas do norte de Minas, andam por elas.

Estes são os personagens de ANDARILHO e observá-los não representa nenhum exercício antropológico, mas muito mais filosófico. Somos levados a vê-los, por minutos a fio, quase não há falas (só os sons naturais captados de maneira metafórica pelo genial "Grivo". Metafórico porque nos leva em elipses a todo tempo para algo do extra-campo, além da visão. Ex: se vemos ao longe a barbearia de estrada, ouvimos o som dos pés arrastados do barbeiro que corta o cabelo). Ouvimos com potência o barulho dos caminhões gigantes que passam arrebentando o asfalto (quem um dia disse que odiava o barulho de carros passando em velocidade na estrada?) e o som hipersensível de tudo que está neste entorno. Sim, porque nosso ponto de vista e de audição é de quem está ao lado do asfalto, às vezes fora dele, por pouco.

Cao Guimarães consegue transformar, através do posicionamento de seu olhar, seus personagens "reais" em ficcionais. Impressiona a maneira como eles se colocam diante das câmeras, com total naturalidade, não há vacilos. Em certos momentos, temos a sensação de estar num filme roteirizado, em que as falas (nos poucos momentos que elas acontecem) foram ensaiadas, tamanha a naturalidade dos três andarilhos. Ele não mata a existência do acaso. Um mundo de tão real se faz ficcional.

Spoiler Rating: 72
LBC Rating: ~

Por Zeta Filmes

4.9.07

A matemática dos humanos



"Os seres humanos não são fórmulas matemática, não são só razão", afirma um dos personagens no filme "Tai Yang Zhao Chang Sheng Qi" ("O Sol Também se Levanta"), dirigido pelo chinês Jiang Wen.

Talvez por isso compreender o filme seja difícil. Como diz outro personagem: "Ainda não entendeu? Talvez seja porque você não fale chinês".

THE SUN ALSO RISES conta uma história de vários personagens, de uma maneira um pouco realista e um tanto sonhadora, em meio a uma magnífica natureza chinesa, com bela fotografia. "O público ama um filme cheio de emoções," afirmou Jiang Wen. "Além da superficialidade das palavras, senti tua alma", afirma mais um personagem.

Jiang Wen é, por sua vez, uma verdadeira personalidade do cinema chinês. Como ator, ele acompanhou a carreira dos cineastas da chamada "quarta geração", entre eles Zhang Yimou e Hou Yong, e como diretor emplacou com seu segundo filme, DEVILS ON THE DOORSTEP, premiado em Cannes em 2000.

Inspirado em uma novela de Ye Mi, o filme é uma esplêndida seqüência de belas imagens que mistura quatro histórias entrelaçadas, juntando magia, lirismo, fantasia, delírio, metáforas, cor, música, mundo irreal, vida e morte em uma história confusa e desordenada, mas que arrancou aplausos do público e da crítica de Veneza.

Spoiler Rating: 87
LBC Rating: ~

Sérvia e Bósnia


Dirigido por Richard Shepard, diretor de O MATADOR (2005), a trama tem como pano de fundo o embate envolvendo os criminosos Radovan Karadzic e Ratko Mladic, durante a guerra civil entre Sérvia e Bósnia.

A história se desenrola no ano 2000, cinco anos antes do fim da guerra. O repórter Simon Hunt (Richard Gere) e o cinegrafista Duck (Terence Howard), que cobriram violentos combates, da Bósnia ao Iraque, se reencontram após muito tempo. Simon havia saído de cena após ter perdido o controle de si durante uma transmissão de TV.

Reencontram-se em Sarajevo, e Simon faz uma proposta ao seu velho amigo, que no fundo sente saudades da adrenalina da guerra. Eles possuem em mãos um verdadeiro furo mundial: onde encontrar o criminoso mais procurado da Bósnia, Volpe (interpretado por um sósia de Karadzic). A partir daí se jogam em uma perigosa aventura que os levará ao interior de um território hostil para obter o furo de suas vidas.

O filme, que começa com a frase "somente os particulares mais inacreditáveis desta história não são verdadeiros", é inspirado em uma história real, publicada pela revista "Esquire".

Este é o terceiro filme do evento tendo "guerras" como tema. REDACTED, de Brian De Palma e IN THE VALLEY OF ELAH, de Paul Haggis, também exibidos em Veneza, trataram sobre a política externa norte-americana e o desastre da guerra no Iraque. THE HUNTING PARTY narra conflitos na Europa.

Spoiler Rating: 83
LBC Rating: ~

Da Agência ANSA

Inútil


Em 2006, seu EM BUSCA DA VIDA tinha o risco de não ficar pronto a tempo. A opção do Festival de Veneza foi então anunciar o filme de Jia Zhang-Ke em competição sem anunciá-lo, como filme surpresa. Foi exibido e merecidamente levou o Leão de Ouro. Temos agora do mais festejado cineasta asiático o novo filme USELESS/ INÚTIL.

Jia Zhang-Ke é o cineasta chinês dos temas urgentes. Seus trabalhos registram com desconfiança os signos do progresso econômico voraz do modelo chinês de capitalismo de estado, insensível com as suas conseqüências sobre as populações e as culturas milenares da imensa China. O pior é que o modelo chinês de capitalismo voraz faz vítimas também fora da China ao vender seus produtos baratos e sem concorrência a todo o mundo.

E em 2007, a 64ª edição do Festival de Veneza, conforme nos confidenciou Jia Zhang-Ke, por pouco não tem a cópia de INÚTIL, cujas imagens de sua terceira e última parte estavam sendo ainda filmadas na segunda semana de agosto em Fenyang, na China.

USELESS dirige o olhar a três aspectos distintos da moda e confecções. Sobre quem as faz e quem as veste. A primeira parte do filme se concentra numa fábrica em Cantão, de roupas produzidas em grande escala. O calor úmido é combatido com inúmeros ventiladores. Os empregados seguem um ritual mecânico, mesmo nas refeições e nos plantões médicos. São apáticos como na relação com as roupas que costuram e que logo serão despachadas pelo mundo a clientes desconhecidos.

Na segunda parte do seu docudrama, Jia Zhang-Ke segue os preparativos finais da estilista Ma Ke que prepara uma impressionante instalação no Fashing Week de Paris. Ma Ke faz esculturas vivas, vestidas com roupas orgânicas, que por entre elas, ao contrário de outras apresentações de moda, é o público quem desfila. Ma Ke, aclamada como anti-fashion designer, também é vista em sua recém inaugurada loja de moda na China, justamente batizada como "Wu Yong" (Inútil). "É um absurdo que a China exporte tantos produtos pelo mundo e não tenha nenhuma marca conhecida pelos consumidores", ela desabafa. Sua marca "Useless", com roupas bem simples e confortáveis, ao contrário das que são vistas em sua instalação de protesto, ganha com Jia Zhang-Ke instantânea projeção mundial.

Na sua terceira parte vemos em INÚTIL a paisagem desolada da China moderna com a melancólica decadência de tradicionais ateliês de costura, onde os últimos clientes vão fazer suas roupas de encomenda. Antigos artesãos de costura trabalham agora em minas de carvão. Depois de um ritual de lavagem corporal no fim da jornada de trabalho dos mineiros, Jia Zhang-Ke prova mais uma vez ao espectador, com os poucos diálogos de um casal, porque ele é mesmo um dos grandes gênios do cinema moderno. Mais uma vez o seu filme trata de resistência e humanismo. Apesar de todas as vicissitudes, o ex-costureiro e agora mineiro, com a mulher ao lado, prepara-se para ir passear de moto. E ele tem orgulho da roupa que sua mulher está vestindo, e que ele mesmo comprou numa loja para lhe dar de presente. O modelo que ela veste certamente não está à venda numa loja de chamada alta costura, como também as vemos no filme. Não é uma roupa para ostenter pela marca, o poder de compra de quem a usa... É um signo de afeição. Um sentimento que não se perde no filme de Jia Zhang-Ke apesar de todos os riscos da modernidade.

Spoiler Rating: 76
LBC Rating: ~

Por Leon Cakoff - Mostra SP

Cosa Nostra


Parece que IL DOLCE E L´AMARO, de Andrea Porporati, não agradou ao público no Lido. Não se ouviu um único aplauso na sessão de imprensa, embora também tenha sido poupado de vaias. E nem seria o caso de vaiar, pois se trata, pelo menos, de um filme digno. O problema é ser convencional demais.

Cobrindo um período de 20 anos, o filme conta a história de Saro Scordia, um rapaz esperto que cresce na Sicília e se deixa seduzir pelo poder e o dinheiro rápido proporcionados pelo ingresso na Máfia.

Depois de seu pai morrer num motim numa prisão, Saro vira protegido de um chefe mafioso local e vai pouco a pouco ascendendo na Cosa Nostra, tornando-se um matador que é enviado ao norte da Itália para atuar em assaltos e assassinatos.

Mas sua maioridade como bandido coincide com um desencanto crescente com o mundo da Máfia e seus chamados homens de honra, dispostos a mudar de lado e trair quem se interpõe em seu caminho.

O filme é bem-feito e tem aquele encanto das histórias da Cosa Nostra, tais como, nos acostumamos a ver a partir dos Chefões de Coppola. Truculência, certo humor, ambientação familiar, algum folclore. Ou seja, nada que o cinema americano, e até mesmo o italiano, já não nos tenham dado dezenas de vezes. Daí a indiferença. Mas é filme que se deixa ver com prazer.

Spoiler Rating: 75
LBC Rating: ~

Por Luiz Zanin Oricchio (Estado) & Silvia Aloisi (Reuters)

Help Me Eros


HELP ME EROS é uma tremenda pedida de ajuda ao deus do amor. Amor, seja lá o que isso significa, o que é uma das perguntas desse filme desesperado, radical, às vezes francamente desagradável, mas que não sai da cabeça depois de visto.

Parece uma desrepressão total, sofrida, terminal e que se expressa numa linguagem asséptica, de beleza fria, cheia de neon, gadgets eletrônicos mediando a vida das pessoas. E uma sexualidade que sempre flerta com a perversão...e com a morte.

Não sei se vale a pena enumerar personagens, mas vá lá: há um operador de bolsa que perde tudo e começa a se envolver com as garotas que trabalham de microssaia embaixo do seu edifício. Há outro, homossexual, que faz comidas deliciosas para engordar cada vez mais sua já obesa esposa. Esta, insatisfeita sexualmente, olha cobiçosa para a criação de enguias do marido...e mais não digo. O efeito sobre a platéia foi devastador: mais da metade saiu. Mas confesso que não sei o que se passa na cabeça de críticos que não podem suportar um filme mais forte. É querer ser médico e ter medo de sangue.

Mas o visual quase psicodélico do filme mostra como a realidade é filtrada por uma mente que às vezes é puro desejo, e outras, puro desespero. Vale a experiência. E o risco.

Spoiler Rating: 70
LBC Rating: ~

Por Luiz Zanin Oricchio (Estado)

Não Estou Lá



I´M NOT THERE é um projeto cercado de grande expectativa, tanto pelo gigantismo de seu tema (uma cinebiografia de Bob Dylan) quanto pela originalidade da proposta (seis atores interpretam fases e aspectos diferentes da vida do cantor e compositor). E o resultado mostra que a proposta não era puro exibicionismo, e sim a evolução natural de um cinema que procura comungar pesquisa de linguagem e um certo grau de comunicação, que não encerre o filme em um nicho fechado.

Todd Haynes conseguiu, enfim, o que vinha buscando desde o começo de sua carreira: captar o fluxo da vida e as metamorfoses que sofremos fugindo dos elementos que costumam servir de leito para a narrativa convencional (a trajetória do herói, os "três atos" do roteiro, e, principalmente, as “causas” que determinam o destino dos personagens). O objeto do filme é perfeito para isso: Bob Dylan é, ao mesmo tempo, um artista em eterna transformação e um homem coerente com alguns princípios básicos.

E o filme reproduz essa idéia dentro de sua própria estrutura, de forma muito bem-sucedida. Épico, musical, drama intimista, faroeste, "road movie", comédia _o filme se transforma na medida em que seu personagem "pede". E Haynes faz o pequeno milagre de conferir uma estranha organicidade a tudo isso.

Os atores ajudam. Eles vivem personagens com nomes diferentes mas que, fica muito evidente, representam facetas ou fases de um mesmo homem, Bob Dylan. Do menino negro Marcus Carl Franklin, que faz o pequeno Dylan, fugitivo e já apaixonado por determinados aspectos da música tradicional americana, a Cate Blanchett, que incorpora Dylan na fase mais conturbada de sua carreira, quando ele incorporou uma banda de rock e foi considerado um traidor do folk e da canção de protesto.

Funciona legal, depois que você se acostuma. A trilha é toda de Dylan, lui-même.

Como o filme explode em várias direções, inclusive com material de arquivo, de época, sobre a história e a política dos anos 60, parece que falta síntese e firmeza no bisturi na hora de concluir. Fica girando um pouco em falso, indo e vindo. Mas ficam os momentos de brilho e a visão nada careta de um grande artista.

Spoiler Rating: 87
LBC Rating: ~

Por Luiz Zanin Oricchio (Estado) e Pedro Butcher (Folha)

O Futuro num Cuscuz


O neo-realismo, para Abdelladif Kechiche, é um prato de cuscuz preparado em família, enquanto se fala bem e mal dos outros, ri-se, briga-se, discute-se e chora-se. "Le Graine e le Mulet", que o diretor tunisiano levou à competição em Veneza, já com a promessa do Leão de Ouro, muito aplaudido pela imprensa, abre a porta da casa de uma família de origem árabe que vive na França e aponta o foco sobre os imigrantes para descrever seus ritos sem clichês, como aquele do cuscuz, que dá título ao filme.

A família de Slimane, operário nos canteiros navais de Sete, vizinho a Marselha, é numerosa, rumorosa, mas não desiste de demonstrar afeto pelo pai nem mesmo quando ele vai embora de casa depois do divórcio. Os filhos, e também a esposa, estarão presentes e apoiarão seu projeto de abrir um restaurante em um barco abandonado.

No filme são os atores, todos amadores, que garantem a verossimilhança ao retrato neo-realista dos imigrantes franco-árabes, já de segunda e terceira geração, mas com a mesma nostalgia, apego às tradições e timidez de quem chega em um país estrangeiro e procura adaptar-se com os meios que têm à disposição. E a família, para quem deixou sua terra, é o núcleo em torno do qual tudo gira.

"Queria que durante o trabalho os atores se sentissem como uma verdadeira família", declarou Kechiche, que fez longos ensaios com os atores, encorajando-os a dar sugestões aos diálogos para torná-los mais pessoais. Com grande experiência como diretor teatral, o autor tunisiano procurou contar a história de uma família com a qual sentia afinidade -- o próprio pai do diretor, a quem é dedicado o filme, era um imigrante -- colocando-a em cena "sem clichês, fazendo emergir a vida real apesar do artifício do cinema".

Por isso Kechiche se detém sobre a cena do almoço de família, onde o cuscuz é protagonista junto com as histórias de todos os presentes à mesa, uma longa refeição onde as vozes não se sobrepõem nunca, porque cada um tem respeito pela palavra do outro e as hierarquias são muito rígidas, como em qualquer família árabe que não tenha abdicado de suas tradições.

O neo-realismo está não só nos atores amadores e nos diálogos em parte improvisados, mas também nas citações explícitas, como na cena da moto roubada do protagonista, eco da bicicleta do diretor Vittorio de Sica (no filme "Ladrão de Bicicleta", 1948).

Já em Veneza em 2000, com um filme sobre a dificuldade de integração dos imigrantes tunisianos em Paris, A CULPA DE VOLTAIRE, Kechiche não insiste sobre os efeitos dramáticos de temas como o trabalho precário, as invejas no mesmo grupo social ou as dificuldades de convivência de diversas origens, mas se concede também momentos de divertimento escondidos no cotidiano: "A vida está ali, eu só procurei colhê-la."

Um belíssimo filme, de interpretações espontâneas e pulso humanitário.

Spoiler Rating: 92
LBC Rating: ~

Da Agência ANSA

3.9.07

Os Amores de Astrée e Celadon



Aos 87 anos, Rohmer não veio defender pessoalmente OS AMORES DE ASTRÉE E CELADON (LES AMOURS D´ASTRÉE ET CELADON, seu 27º longa-metragem), mas mandou uma mensagem justificando a ausência: "Veneza já honrou muitos de meus filmes [...]. Já recebi até um Leão de Ouro especial pelo conjunto de minha obra. Mas não quero que ninguém pense que vou começar uma criação de leões. Apenas meu precário estado de saúde me impede de estar com vocês para acompanhar Astrée e Céladon, levados a Veneza pelo vento que eu gosto tanto de filmar, e que talvez sintam passar pela laguna".

O bilhete de Rohmer soou especialmente comovente dado o frescor e a leveza de seu filme, em nada parecido com a obra de um homem velho. A partir de um clássico da literatura francesa escrito por Honoré d'Urfe no começo do século 17, o diretor retoma o estilo dos outros filmes de época de sua carreira, recusando-se a encenar diante da câmera uma representação pseudo-realista do passado. Prefere investir em um visual inspirado em pinturas e gravuras da mesma época e em diálogos não-atualizados, que mantêm a poética muito particular do período.

Na linha da fábula pastoril, dois amantes se desentendem, se separam e acabam se reencontrando depois de muitas situações equívocas. Ambientada no século 5 d.C., segundo uma narrativa do século 17.

Com toda sua poesia, o filme de Rohmer pareceu deslocado.

Spoiler Rating: 85
LBC Rating: ~

Por Pedro Butcher (Folha de São Paulo)

O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford



A culpa e o remorso são predominantes no segundo filme do diretor da Nova Zelândia Andrew Dominik, de 40, co-produzido e protagonizado por Brad Pitt, que interpreta o bandido Jesse James, em THE ASSASSINATION OF JESSE JAMES BY THE COWARD ROBERT FORD. O filme, que concorreu com outras 22 produções pelo Leão de Ouro, descreve a relação que vai se criando entre o célebre bandido, visto como um herói por alguns, por roubar dos ricos para distribuir entre os pobres, e seus comparsas, com os quais se comporta como um tirano.

De forma muito coerente com o que ocorre hoje nos EUA (e no mundo), Jesse James é um bandido sanguinário que elimina friamente seus inimigos, convencido de que até os parceiros de roubo querem se aproveitar de sua glória. Um desses aliados - em quem Jesse James mais confia - será o homem que vai matá-lo pelas costas. Nenhuma surpresa - o assassinato já está referido no título do filme de Dominik.

Mas a lenda adquire características bíblicas com o assassinato, retratado de tal forma que lembra o sacrifício de Jesus, traído por Judas, diante dos olhos de Maria Madalena. Apesar da fotografia cuidadosa, da narração fora de cena e da encantadora presença de Brad Pitt, a história da vida privada do bandido - bonito, forte e carismático é excessivamente longa (com três horas de duração).

O que há de mais fascinante nesta nova versão (realista) do mito de Jesse James é que o assassino, esperando a recompensa da sociedade - afinal, ele eliminou seu inimigo público número 1 -, colhe o desprezo. É muito perturbador. Brad Pitt ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza e o júri não errou, embora também pudesse ter premiado Casey Affleck e Sam Rockwell, que estão no elenco.

Spoiler Rating: 88
LBC Rating: 67

Por Elíseo García Nieto e Antonio Lafuente (Agência EFE), Luis Carlos Merten (Estado) e redação da Agência AFP
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