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11.3.08

Horton e o Mundo dos Quem!

HORTON E O MUNDO DOS QUEM! é um deleite. Repleto de cores e sagacidade, o filme transporta o público para o interior da incrível imaginação do Dr. Seuss (“Grinch”), por meio de uma obra-prima de computação gráfica.

O filme, tal como o livro de Seuss, apresenta um elefante cheio de imaginação chamado Horton (Jim Carrey), que vive na selva de Nool e ouve um pedido de ajuda vindo de uma partícula de poeira que flutua no ar. Embora Horton ainda não saiba, tal partícula abriga toda uma cidade chamada Quemlândia, habitada por seres microscópicos, liderados pelo Prefeito (Steve Carell). Apesar de ridicularizado e ameaçado por seus vizinhos, que acham que ele ficou maluco, Horton está determinado a salvar a partícula, pois “uma pessoa é uma pessoa, não importa o tamanho que tenha”.

Horton é diferente de qualquer elefante já visto anteriormente. Ele é extraordinário e, sob muitos aspectos, vai além de seu corpanzil; possui um grande coração, uma grande personalidade e um grande senso de humor. Horton se distingue por sua gentileza, confiabilidade e perseverança. Apesar da imensa adversidade, do ridículo, da condenação e das ameaças, a determinação de Horton em garantir a segurança de Quemlândia permanece intacta. Ele é sempre fiel... cem por cento.

E assim o filme dá oportunidade de cada personagem mostrar seu valor e seu ponto de vista original. Um belo trabalho dos cineastas Jimmy Hayward & Steve Martino que impregnam cada experiência surreal entre os dois mundos paralelos com muito suspense, comédia e ritmo. Do conceito de arte até a música e som de John Powell e Randy Thom, tudo contribui para tornar HORTON E O MUNDO DOS QUEM! num deslumbrante passeio entre a imaginação fértil de Seuss e a glória dos desenhos animados.

Spoiler Rating: 82
LBC Rating: ~

Jumper

JUMPER trata de um jovem, David Rice (Hayden Christiansen), que descobre um dom: O teletransporte. David pode ver 20 pores-do-sol em apenas um dia, levar a sua namorada pelo mundo inteiro num piscar de olhos e agarrar milhões de dólares em minutos. Entretanto, existe uma organização secreta que jurou matar “Jumpers” que o descobre e o persegue por todo o globo. Do centro dos Estados Unidos para as ruas de Tóquio. De Londres às ruínas de Roma, a odisséia mundial de David é uma aventura épica.

E JUMPER é apenas e somente isso, um espetáculo visual, por vezes pobre, onde reinam a desordem, o roteiro confuso e mal-concebido e os atores totalmente mal aproveitados, com especial ênfase para Hayden Christiansen que tecnicamente sempre foi um ator ruim. Além de não conseguir expressar qualquer tipo de emoção, ainda tenta enveredar para o humor, onde tropeça brutalmente, só parando no fundo do poço. Também Samuel L. Jackson está fraquinho. Jamie Bell, o outro jumper, pelo menos, consegue ter algum carisma e expressar alguns sentimentos de forma verossímil.

O diretor Doug Liman (INDENTIDADE BOURNE, SR & SRA. SMITH) tinha uma boa premissa em mãos, mas acabou pecando pela pressa com vários erros de argumento e soluções fáceis levando a fita ao lugar comum.

Apesar de tudo, JUMPER é um bom filme. Daqueles de se ver e rapidamente esquecer, ideal para uma sessão da tarde. Vale pelos efeitos especiais, a beleza estonteante de Rachel Bilson e um pouco de Jamie Bell e nada mais.

Spoiler Rating: 70
LBC Rating: ~

7.3.08

O Orfanato


O ORFANATO é um “terror à espanhola”. Um gênero que vem ganhando espaço, sucesso e público. Não se trata de um filme de terror, mas um drama sobrenatural. Uma estória com crianças, fantasmas e casas lúgubres.

Vindo de Cannes, coberto de elogios, o filme caminha com bastante elegância por onde muitos perderiam as estribeiras num festival de sustos baratos: Seu foco definitivamente firmado no curioso drama da história (que, ao estender a questão da orfandade e incluir o ângulo do HIV, poderia ganhar toda uma nova carga de urgência) deve ter feito a festa de um público inteligente carente de filmes de suspense igualmente inteligentes.

Laura (Belén Rueda) passou os anos mais felizes de sua infância num orfanato à beira do mar, onde recebeu cuidados de funcionários e outros órfãos que amava como irmãos. Trinta anos depois, ela retorna com seu marido Carlos, e Simon, o filho de sete anos, com o sonho de restaurar e reabrir o orfanato há muito abandonado como abrigo para crianças inválidas.

O novo lar e seus mistérios despertam a imaginação de Simon e o menino cria uma teia de histórias fantásticas e jogos pouco inocentes. São brincadeiras perturbadoras que começam a incomodar sua mãe que adentra o estranho universo do garoto e com isso resgata memórias incômodas e há muito esquecidas de sua própria infância.

Bem cuidado, bem produzido e fotografado com o mesmo porte elegante que o roteiro se carrega, o diretor Juan Antonio Bayona trabalha nos detalhes, usa o poder de sugestão, mas não se furta a filmar os fantasmas, até porque eles podem ser produtos de uma imaginação doentia. O quadro é sugestivo e coerente com os filmes de Guillermo Del Toro (e mais com A ESPINHA DO DIABO do que com O LABIRINTO DO FAUNO).

Não se trata de um filme de terror explicito. Terrores como O ORFANATO são chamados de slow burning nos EUA, mas nesse caso a queimadura arde tão lenta que nada se sente, nada se marca. Nada acontece. Enquanto filme de terror, é como olhar para um aquário por seis horas, mas enquanto drama psicológico é um colírio de se encher os olhos.

Spoiler Rating: 89
LBC Rating: ~

Por Luiz Carlos Merten (Estado) & Bernardo Krivochein (Zeta Filmes)

10000 AC

Roland Emmerich é o tipo de diretor que os críticos têm prazer em odiar. Alemão, fascinado por Hollywood e por superproduções (INDEPENDENCY DAY, GODZILLA, O DIA DEPOIS DE AMANHÃ) ele próprio considera inimaginável fazer um filme de baixo orçamento. Agora por tradição, seu novo filme repete as velhas fórmulas de sua filmografia e, os mesmos defeitos...

10000AC é puro cinema pipoca. Repleto de ação, aventura, centena de efeitos e uma narrativa épica (e mítica), o diretor volta-se para a aurora do mundo, recuando cem séculos no tempo para debruçar-se sobre a saga do primeiro herói, D'Leh (Steven Strait).

O público logo é convidado a acompanhar uma faminta tribo de caçadores que convivem com a iminente extinção de sua principal presa, o mamute. A certa altura, a tribo ainda sofre com o seqüestro de alguns de seus jovens e de uma bela menina de olhos azuis. Cabe ao herói resgatá-los.

Trata-se de uma aventura séria, mas com certa veia cômica e certo estilo kitsch. Os habitantes tribais – quase selvagens - falam um inglês sem restrições. Têm dentes branquíssimos e perfeitos. São todos solenes, com vocabulário e empostação de voz típicos dos clássicos hollywoodianos dos anos 50.

Por outro lado, a direção de arte é espetacular, criando com força faraônica, gigantescas civilizações perdidas. Virtuais, é claro. Fora uma debandada de mamutes e um tigre virtual ainda melhor que o leão Aslan de CRÔNICAS DE NÁRNIA. O que não é pouco.

O diretor usa todos os recursos do cinemão para construir uma história de redenção, com direito a segunda chance e volta ao lar, temas essenciais de Hollywood. Sem preconceito, é possível embarcar na magia de sua fábula. Mas ao vê-lo só nos obriga a dar crédito a Mel Gibson pelo semelhante e infinitamente superior APOCALYPTO.

Spoiler Rating: 63
LBC Rating: ~

Por Pedro Butcher (Folha), Luiz Carlos Merten (Estado) & Celso Sabadin (Yahoo Movies)

2.3.08

Rambo IV

Quem já conhece a série de filmes protagonizada por Sylvester Stallone já sabe o que esperar de RAMBO IV. Porém, obviamente, seria impossível fazer um herói igual ao de 20 anos atrás. Afinal, nossa estrela está com 61 anos e até confessou o uso de hormônios durante as filmagens para ganhar massa muscular. Para compensar a idade do astro, uma enxurrada de sangue invade a tela, tornando o filme mais violento da franquia – o que não é sinônimo de qualidade. Além de protagonizar, Stallone está à frente da direção, roteiro e produção do longa-metragem.

O solitário John Rambo (Stallone) parece ter desistido de lutar contra seus conflitos interiores e vive isolado no norte da Tailândia, levando uma vida simples e solitária nas montanhas. Apático e alheio aos problemas que o cercam, como a guerra civil na Birmânia, ele sobrevive pescando e capturando cobras venenosas para venda. Um grupo de missionários fica sabendo sobre as habilidades do herói norte-americano e pede para levá-los pelo rio Salween até os refugiados da tribo Karene, já que o caminho por terra se tornou extremamente perigoso por causa das minas terrestres.

Rambo reluta em aceitar por não acreditar que alguém possa acabar com uma guerra civil que já dura 60 anos. Mas Sarah (Julie Benz) consegue acender o espírito de justiça que estava adormecido no desiludido herói e finalmente consegue o melhor guia da região. Porém, o grupo é seqüestrado pelo exército birmanês e Rambo é o único capaz de resgatá-los. Para isso, conta com a ajuda de um grupo de mercenários formado por soldados americanos, contratados pelo pastor da igreja dos missionários.

Como você pode ver, o enredo não é nada complexo, sobrando espaço – aliás, muito espaço – para a matança que imortalizou o personagem de Stallone. Afinal, os filmes podem ser ruins, fracos, sem sentido, com péssimas atuações, mas quem nunca assistiu? Quem nunca soltou alguma frase dita por Rambo? Ou mesmo o imitou de alguma forma, mesmo que fosse amarrando uma faixa vermelha na cabeça quando criança? Pois é esse o efeito que o personagem causa. Muitos falam mal, mas não deixam de conferir as aventuras do herói. Nem que seja na televisão, sem gastar nenhum dinheiro com isso. RAMBO IV não é o tipo de filme que entra na lista dos melhores, longe disso, mas é a continuação de um clássico.

Uma coisa não dá para negar: os efeitos visuais são bem-feitos, fazendo com que o público feche os olhos para cabeças voando, pernas explodindo e corpos dilacerados. Também não podemos tirar o mérito da direção de Stallone. Pois, por mais simples e vazio que o filme seja, não é tão fácil criar seqüências de ação com explosões e tiros para todos os lados sem atropelar as cenas e confundir a cabeça de quem assiste.

Se você acredita que o velho Rambo merece seu prestígio, é bom se preparar para cenas fortes e cruéis. Não somente por conta de seus brutais ataques ao inimigo, mas pela dura realidade de uma guerra civil, com direito a pedaços de corpos voando o tempo inteiro, inclusive de mulheres e crianças. Lembrando que o banho de sangue, associado a uma situação real, é muitas vezes chocante.

Spoiler Rating: 53
LBC Rating: ~

Por Livia Brasil - Yahoo Movies

27.2.08

Chega de Saudade

Laís Bodanzky gosta de fazer filmes como quem olha pelo buraco da fechadura. Foi com este espírito que a cineasta realizou CHEGA DE SAUDADE, seu segundo longa-metragem – o primeiro foi BICHO DE SETE CABEÇAS - que teve sua estréia (ovacionada) no Festival de Brasília, onde ganhou os candangos de Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Direção e Melhor Roteiro.

CHEGA DE SAUDADE conta, numa única noite, várias histórias vividas pelos freqüentadores de um salão de baile da terceira idade. Com muita música e dança, os acontecimentos fazem o espectador se sentir dentro da vida pulsante do baile.

Circular como o salão, a trama gira em torno de Marici (Cássia Kiss), e Eudes (Stepan Nercessian), que vão junto ao baile. Marici faz amizade com Bel (Maria Flor), uma jovem "estrangeira" no salão, que namora o rapaz que cuida do som, Marquinhos (Paulo Vilhena). Eudes tira Bel para dançar, o que provoca reações diversas.

Enquanto isso, Alice (Tônia Carrero) e Álvaro (Leonardo Villar) enfrentam as limitações da idade, sem abandonar o salão. E Elza (Betty Faria) chega excitada ao baile, cheia de expectativas e com uma amiga de primeira viagem a tira colo - Nice (Mirian Mehler).

As histórias se misturam com outras, não menos vibrantes. A libido de um par de dançarinos de tango quase transborda a tela; duas mulheres (a esposa e a amante) duelam pelo mesmo dançarino; um gordo dança sozinho; o garçom costura tudo, como quem usa linha e agulha.

A trilha transita do circuito samba-rock ao bolero dos salões tradicionais. Do forró, ao fox-trot, com grande estilo. CHEGA DE SAUDADES são vários bailes, como são vários os personagens misturados no filme. "Trata-se de uma grande salada, bem temperada", comenta a diretora. E cada canção, conduzida com maestria por Elza Soares e Marku Ribas, explicita a narrativa, direta ou indiretamente

A fotografia de Walter Carvalho é pulsante. Com a câmera amarrada ao corpo, ele e seu equipamento dançaram junto com os atores. O resultado é imersivo. Autonomia de 360 graus o tempo todo.

Sutil e empolgante, o filme, aos poucos, faz o espectador se sentir íntimo dos personagens. Um filme convidativo que ganha o público rapidamente. CHEGA DE SAUDADE cria uma sensação de euforia, de descoberta, de liberdade. Uma sensação deliciosa de ver, ouvir e, porque não, dançar...

Spoiler Rating: 90
LBC Rating: ~

18.2.08

Os Indomáveis

O western volta a ter um encanto especial e surpreendentemente emotivo com OS INDOMÁVEIS (3:10 TO YUMA). E apesar de ser um faroeste, quem não gosta do gênero também tem bons motivos para ir ao cinema, pela história de dois homens (brilhantemente interpretados por Russel Crowe e Christian Bale) que optaram por caminhos distintos na vida, mas que o destino se encarrega de juntá-los.

Dan Evans (Christian Bale) é um homem honesto que sobreviveu à Guerra Civil com uma lesão na perna e uma pequena pensão. Contra as adversidades, Dan luta pelas suas terras, que vai sendo massacrada pelos credores locais, e vai perdendo o respeito do seu filho adolescente - que vê nos bandidos e vilões a bravura que não vê no pai.

Quando o implacável e lendário bandido Ben Wade (a quem Russell Crowe dá um certo charme, carisma e mistério) é capturado num assalto, Dan Evans voluntaria-se para ajudar o grupo de escolta para a cidade de Contention - de onde parte o trem para Yuma, às 3:10, onde Ben será entregue à justiça e julgado.

Os homens de Ben, onde está o temível Charlie Prince, tudo farão para tentar resgatá-lo e, apesar de capturado, Ben é ameaça letal. Confiante e astuto, ele tira partido da mais ínfima fraqueza humana. Mas a viagem infernal será também de autodescoberta para o bandido e o homem honesto que irão se ver numa encruzilhada.

Trata-se de uma historia conhecida, um remake do filme homônimo de 1957. Mas aqui, o diretor e roteirista James Mangold (JOHNY E JUNE) usa um argumento soberbo, envolvente e humano. Unido com um ritmo rápido e uma trilha musical intensa de Marco Beltrami (Indicado ao Oscar, assim como o filme pela mixagem de som).

Como um bom faroeste de Howard Hawks, OS INDOMÁVEIS acerta ao contar a história de uma amizade torta, com ótimos coadjuvantes, como o veterinário que entra para o grupo da escolta (Alan Tudyk) ou o velho caçador de recompensas vivido por um magistral Peter Fonda. Mas, ao tentar imitar a grandiosidade de Sergio Leone, Mangold se dá mal.

É a extrema indecisão de registros que prejudica OS INDOMÁVEIS, esvaziando-o da pulsação que alterna tempos mortos e ação - e que tornou grandes os melhores faroestes.

Spoiler Rating: 81
LBC Rating: ~

26.1.08

O Signo da Cidade


Em O SIGNO DA CIDADE, tramas múltiplas enredam personagens urbanos numa teia de encontros, desencontros e descobertas. Enquanto astros e estrelas se movem pelo céu de São Paulo, atirando sua mágica ao acaso, homens e mulheres perguntam o que será de seus sonhos e desejos.

Gil está casado e só. Lydia flerta com o perigo. Josialdo nasceu para ser mulher. Mônica só quer se dar bem. No programa noturno de rádio em que atende ouvintes anônimos, a astróloga Teca se vê entre os anseios dos outros e seus próprios problemas. Aos poucos, o destino enreda a todos numa única teia. Na luta para romper o isolamento e achar o rumo da redenção, eles vão descobrir o poder transformador da solidariedade.

Enquanto histórias humanas que parecem desconectadas se enredam numa engenhosa teia, entre acasos, encontros inesperados e coincidências, os personagens dO SIGNO DA CIDADE vão descobrir que reescrever o destino não é de todo impossível e que o antídoto para a solidão pode estar na solidariedade.

Com direção de Carlos Alberto Riccelli e roteiro de Bruna Lombardi, o novo filme reúne um elenco de peso – Bruna Lombardi, Juca de Oliveira, Eva Wilma, Denise Fraga, Graziella Moretto, Malvino Salvador, Luis Miranda, Fernando Alves Pinto – em torno de uma história urbana e contemporânea, atravessada por tramas múltiplas e por personagens que cumprem um percurso que vai da solidão à descoberta da espiritualidade.

Um herói anônimo; um golpista; um cara normal, que só quer trabalhar e ser feliz. Jovens deslumbrados pela idéia da fama; jovens atormentados pela estranheza da vida. Um homem que está morrendo; uma criança que vai nascer. Uma mulher que leva seu trabalho a sério; uma amiga para quem a falta generalizada de ética justifica a traição e a mentira. Diálogos certeiros e pinceladas rápidas dão vida ao complexo mosaico de tipos humanos dO SIGNO DA CIDADE. Numa seqüência ágil de cenas curtas, o filme atira uns na direção dos outros para deflagrar conflitos e expor feridas – mas também para criar encontros casuais e oportunidades randômicas de redenção e salvamento.

Os cenários do filme não compõem uma metrópole genérica ou uma São Paulo típica, mas uma visão particular da cidade, ao mesmo tempo convidativa e excludente, marcada pelo abandono das calçadas e pela poesia de uma árvore que se debruça sobre a Avenida 23 de Maio. É sob essa árvore que um dos personagens do filme se senta, desorientado, na cena em que Caetano Veloso canta a pungente Sozinho na Cidade.

Spoiler Rating: 84
LBC Rating: ~

25.1.08

O Gângster

Baseado na história real de Frank Lucas, que foi o rei da heroína em Nova York entre 68 e 75, O GÂNGSTER (AMERICAN GANGSTER) é ao mesmo tempo um tributo e uma revisão do gênero que consagrou Francis Ford Coppola. Para ser mais específico, o filme de Ridley Scott é uma tentativa de reviver uma das grandes eras desse gênero cinematográfico - que, não por acaso, corresponde ao período de reinado de Lucas. Ao longo da projeção, o diretor empilha citações diretas aos principais clássicos dos anos 70 dedicados ao universo dos criminosos organizados ou dos policiais que os perseguem: OPERAÇÃO FRANÇA (1971), SERPICO (1973) e o temporão SCARFACE (1983), entre outros. Mas Scott e a equipe de marketing do filme não esconde de ninguém que suas principais referências foram O PODEROSO CHEFÃO (1972). O resultado é um produto sólido, eficaz, digno. Mas não uma obra-prima.

A princípio, muitas características aproximam Frank Lucas (Denzel Washington) de Michael Corleone (Al Pacino). No início dO GÂNGSTER, o personagem vivido por Washington aparece como motorista, segurança e cobrador de dívidas de Bumpy Johnson, lendário dono do crime no Harlem. Quando este morre, em 1968, Lucas é a escolha mais improvável para sucedê-lo, mas ele consegue ocupar o lugar do antigo chefe com uma mistura de atitudes discretas e ameaças de violência, "ética" profissional e tino para o "comércio". Em pouco tempo, ele se torna maior que seu antecessor e passa a pairar sobre a máfia. Assim, vira alvo de investigações do detetive Richie Roberts (Crowe), um dos raros policiais incorruptíveis da Nova York dos anos 70. Como Michael Corleone, Lucas é um homem que quer transformar o crime organizado não apenas em uma atividade racional, mas também em um negócio regido pela lógica empresarial.

E a contraposição entre a trajetória do gângster e a do policial que está em seu enlaço torna-se a tematica do filme. O paralelismo é uma tentativa de dar conta da complexidade da situação, mas da forma como é aplicado, tem efeitos reducionistas. A contraposição entre bandido e mocinho segue uma cartilha por demais básica: para cada qualidade de um, é apresentado um defeito do outro, ou vice-versa. Se vemos Lucas tratar bem a família, veremos Roberts negligenciar o filho; se vemos Roberts recusar propinas, veremos a brutalidade de Lucas. Esse método acaba comparando e nivelando coisas muito diferentes entre si em nome da humanização dos personagens. Ainda assim, "O Gângster" sustenta o interesse graças à força da história, até agora desconhecida (ainda que bastante romanceada, é verdade).

Spoiler Rating: 86
LBC Rating: ~

Por Ricardo Cahill (Bravo!) e Pedro Butcher (Folha de São Paulo)

16.1.08

Cloverfield - Monstro

Poucas criaturas colossais ousaram aterrorizar Manhattam nos últimos anos. Houve KING KONG em 2005 e GODZILLA em 1998. Mas certamente nenhum tão "pipoca" quanto CLOVERFIELD, cortesia do produtor J.J. Abrams, do roteirista Drew Goddard e do diretor Matt Reeves.

CLOVERFIELD é um "BRUXA DE BLAIR de monstro", ou melhor, um "Godzilla Unplugged". Afinal o filme é inteiramente rodado com câmeras digitais caseiras, como se fossem as perspectivas da população.

Para definir o bicho, pense numa criaturinha de 25 andares de altura. Digo criaturinha porque ele é um bebê monstro. É novo, está confuso, desorientado e irritado. Esteve nas profundezas do mar por milhares e milhares de anos. E imagine todas essas coisinhas pequenas - os humanos - atacando-o e deixando-o mais nervoso. Nada matará o monstro, mas o machucam e o monstro não compreende. É o novo ambiente que o assusta.

A trama do filme acompanha a despedida de Rob (Michael Stahl-David), que está indo para o Japão, a terra dos monstros gigantes. Ironicamente, a metrópole que está para ser arrasada por um "ser ensandecido" é Nova York - e a festa de Rob vira uma noite de terror. Há pânico nas ruas, devastação, bolas de fogo, devastação, explosões gigantescas e...Já mencionei devastação?

Os atores são completamente desconhecidos e seus personagens, tão pouco interessantes ou desenvolvidos. Afinal quem pensa em melodrama quando se está fugindo de um monstro? Mas os clichês estão todos lá: O herói, o rebelde, o cínico...

Tecnicamente, o visual é frio, agitado, montagem picada, onde vale tudo, cortes bruscos, chicote de câmera, fora de foco, um ritmo mais agitado, um verdadeiro pesadelo claustrofôbico, aguçado por excelentes efeitos especiais.

E como o filme inteiro não tem música, no final, o compositor Michael Giacchino (OS INCRÍVEIS, RATATOUILLE) surpreende com um grande tributo aos filmes de monstros que certamente vai segurar nas poltronas os mais aficcionados.

Spoiler Rating: 85
LBC Rating: ~

Coisas que Perdemos pelo Caminho

Com COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO, a diretora dinamarquesa Susanne Bier (DEPOIS DO CASAMENTO) faz seu primeiro filme em inglês. As histórias diretas e emocionalmente fortes de Bier, que freqüentemente baseiam-se na repercussão de eventos inesperados, renderam a ela um crescente público internacional.

Aqui, Audrey Burke (Halle Berry) está em choque com a notícia que acaba de receber na sua porta pela polícia local: seu amado marido Brian (David Duchovny), pai de seus dois filhos, foi morto acidentalmente num ato de violência. Audrey, então, fica à deriva. Por impulso, ela recorre a um amigo, Jerry Sunborne (Benício Del Toro), um desamparado viciado em drogas. À medida que Jerry e Audrey navegam pelo pesar, seus frágeis laços são constantemente testados. Cooperando um com o outro, no entanto, eles descobrem forças para ir em frente.

É uma história original muito comovente. E é raro encontrar filmes que contêm histórias pessoais sobre seres humanos interagindo, mas na escala necessária para tornarem-se uma produção para cinema, e não televisão. É um filme que trata de catarse e recuperação. Mas fala também de amizade. E é aperentemente simples em sua concepção.

Halle Berry depois de vários fracassos, atua com intensidade. Del Toro, como sempre, entrou na mente do personagem com bastante humanidade. COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO é emotivo e inteligente. Não chega a ser melodramático mas é, ainda assim, carregado de emoções.

Spoiler Rating: 77
LBC Rating: ~

Alien Vs. Predador 2

Em ALIEN VS PREDADOR 2, novamente se repete a mesma história: Nada de sessão de imprensa para um público que certamente considera o filme uma gigantesca bomba; Um novo embate pegajoso entre muco ácido de alien e sangue fosforescente de Predador e, lógico, centena de figurantes para fogo cruzado entre facções alienígenas.

Dito isso, não há mais o que acrescentar. É uma típica franquia de monstro, caça-níqueis, exclusiva para um publico adolescente que se diverte com filme pipoca, de roteiro descartável, repletos de clichês e efeitos especiais medianos.

No filme, uma espaçonave repleta de aliens cai na Terra (naturalmente em solo americano), e desperta a atenção do mundo dos predadores que envia seu melhor soldado para aniquilar essa raça desprezível. Não há grandes motivações para isso, exceto o fato de Predadores odiarem Aliens ou mesmo, sei lá, um desejo perverso de vingança. Enquanto isso, no melhor estilo "filme de zumbi", a pequena população de figurantes vai sendo dizimada, morta, aniquilada, estraçalhada, esfacelada, enfim, até o grande final quando o roteiro toma consciência do ridículo e lança uma bomba nuclear na cidade. Pronto! É só isso.

Logicamente, você pode se divertir tentando adivinhar qual monstro preto num fundo preto é alien ou predador. Afinal, o diretor de fotografia Daniel Pearl iluminou seus quadros com todo o poder de uma vela de aniversário. É um terror para "terrir" em escuridão completa! Genial!

Spoiler Rating: 37
LBC Rating: ~

6.1.08

Sangue Negro


SANGUE NEGRO (THERE WILL BE BLOOD) de P.T.Anderson pinta um retrato da ganância no inicio do século americano. Construído sobre uma avassaladora performance de Daniel Day-Lewis, como um ávido investidor em petróleo que compra terras de camponeses pobres, o filme é uma epopéia em miniatura.

A estória parte de Marfa, no Texas, e perdura por três décadas - tempo suficiente para uma criança crescer e tomar o lugar do pai. Aqui, o "sangue" não tem nenhum alastro melodramático, ao invés disso, surge como uma alegoria amigável para o petróleo. Embora, o filme em si, não seja particularmente sobre o óleo, mas sobre "homens do óleo". Àquele destinado a gerar grandes riquezas, mas nunca desfrutá-las. Enfim, são as engrenagens da natureza capitalista.

A música do guitarrista do Radiohead, Jonny Greenwood, é cativante e intensa. Uma pesada nuvem de cordas que reflete no petróleo, o mesmo poder misterioso do obelisco negro de Stanley Kubrick em 2001: UMA ODÍSSEIA NO ESPAÇO. Uma intensidade que traduz todas as forças tectônicas e psicológicas que deitam sob e sobre o drama terreno.

Daniel Day-Lewis compõe um personagem ao mesmo tempo fascinante e repugnante, sedutor e odioso. E o rigor das imagens de PTA também impressiona. É bem diferente dos outros filmes dele. As trajetórias são claramente individuais, como um ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE no estilo Deadwood.

Spoiler Rating: 92
LBC Rating: ~

27.12.07

Eu Sou a Lenda

O diretor Francis Lawrence se saiu bem na estréia com CONSTANTINE, agora, o ex-diretor de videoclipes está aumentando as apostas com o ambicioso EU SOU A LENDA (I AM A LEGEND).

O clássico romance homônimo de ficção científica, escrito por Richard Matheson e publicado em 1954, já inspirou anteriormente dois outros filmes: MORTOS QUE MATAM 1964) e A ÚLTIMA ESPERANÇA DA TERRA (1971). Vincent Prize estrelou o primeiro e Charlton Heston o segundo. A versão de Lawrence é estrelada por Will Smith, um dos atores mais populares da atualidade e um veterano de filmes de ficção científica (INDEPENDENCE DAY, HOMENS DE PRETO, EU ROBÔ).

Smith interpreta Robert Neville, um cientista nuclear do futuro próximo que, após a disseminação de um vírus incurável, feito pelo homem, se torna o último humano sobrevivente em Nova York. Ele e seu fiel cão Sam perambulam pelas ruas de dia, mas à noite se escondem dos Infectados, uma raça de humanos que sofreu mutação e se transformou em uma espécie de vampiro. Apesar de não saber se alguém mais no mundo está vivo, Neville corre para usar seu próprio sangue imune para produzir um antídoto, antes que os Infectados o despedacem.

O filme é em grande parte um trabalho de um ator só. Smith aparece em quase todas as cenas e por mais de uma hora ele o faz sozinho, exceto pelo pastor alemão Sam e a ocasional horda de Infectados.

Apesar de grande parte da paisagem deserta de Manhattan, com seus carros abandonados, prédios cobertos de plástico, folhetos de alerta de perigo biológico, cervos e leões andando pelas ruas, ter sido criada digitalmente, Lawrence rodou grande parte do filme em Nova York.

As expectativas são altas para "Eu Sou a Lenda". Mas, apesar de ser um filme de ficção científica de Will Smith, ele está longe de ser o tipo de filme que os fãs de Smith poderiam esperar. Lawrence reconhece que isso é uma preocupação, mas uma que não o faz perder o sono.

"Tudo o que fiz foi fazer o filme que Will, Akiva Goldsman (o co-roteirista) e eu queríamos fazer", ele disse. "Foi uma questão de tentar encontrar o equilíbrio entre um filme que possui o tamanho e o espetáculo de Hollywood e que é empolgante de assistir, mas contando uma história crua e emotiva."

Spoiler Rating: 83
LBC Rating: ~

Por Ian Spelling - Hollywood Watch

14.12.07

Antes de Partir

Se alguém pensasse em transformar uma tragicomédia sobre um paciente terminal de câncer em um hit de verão, certamente a escolha de Rob Reiner, Jack Nicholson e Morgan Freeman seria a coisa certa. Alias, eles foram escolhidos, ANTES DE PARTIR (THE BUCKET LIST) foi feito e é um bom filme.

É sobre dois pacientes terminais que decidem editar uma lista de dez coisas que gostariam de fazer antes de morrer. Nicholson é um cirurgião multimilionário que compartilha o quarto com um mecânico (Freeman). Ambos têm cerca de um mês, um ano no máximo de vida. Então fogem do hospital para realizar seus últimos - e excêntricos - desejos antes de baterem as botas (kick the bucket, ou chutar o balde, na sinopse original - daí o título em inglês, "A lista do balde").

E entre as opções está voar de pára-quedas! Fazer uma tatuagem! Ver as Pirâmides do Egito!

Nicholson e Freeman formam uma inspirada dupla, mas quando o filme realmente inflama, a tal lista termina e fica o sentimento de que foi só uma simples execução de tarefas ao invés de uma realização espiritual. Mas apesar da execução, é um revigorante esforço de ressurreição e sobre viver a vida plenamente.

Spoiler Rating: 70
LBC Rating: ~

Jogos do Poder

JOGOS DO PODER é uma espécie de A MULHER FAZ O HOMEM ao contrário. Na fábula política de Frank Capra, um ingênuo idealista é indicado para ocupar uma vaga no senado, um antro de corrupção e "roupa suja". Nesse filme dirigido por Michael Nickols, um solteiro mulherengo e bêbado é facilmente tentado a se eleger pelo distrito do Texas e, não importa o que faça, ele sempre se safa.

O filme é uma adaptação do romance escrito por George Crile. O livro fala do envolvimento do congressista texano Charlie Wilson com a CIA e o treinamento militar de rebeldes no Afeganistão para lutar contra a ocupação soviética. Um desses alunos de Wilson atendia pelo nome de Osama Bin Laden.

Tom Hanks, ator e produtor, não parece um grande texano, com apetite voraz pela "boa vida", mas prega pela sagacidade política como cordeiro em pele de leão. Julia Roberts, como Joanne Herring - uma das mulheres mais ricas do Texas, amante ocasional de Charlie e uma anticomunista ávida - sabe manobrar Wilson a apoiar a causa dos rebeldes afegãos. É um papel pequeno, mas muito bem interpretado, donde toda a ação culmina. E o terceiro membro da intrépida trupe é um Philip S.Hoffman, num contraste impressionante aos tagarelas sulistas, como um agente da CIA mal-humorado no Afeganistão, que sabe todas as artimanhas internacionais que podem expulsar os soviéticos desse país.

Trata-se de um drama político, falsamente enganado como comédia pelo grande tom satírico. O texto de Aaron Sorkin tem trechos memoráveis e Nickols, como sempre, entrega uma bela paisagem política dos anos 80.

Spoiler Rating: 85
LBC Rating: ~

4.12.07

Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

É século XIX em Londres e todos estão cantando, mas quando o sangue esguicha do Signor Adolfo Pirelli, você sabe que isso não é nenhum MY FAIR LADY...SWEENEY TODD: O BARBEIRO DEMONIACO DA RUA FLEET é um conto selvagem de canibalismo, loucura e serial killers. E esse show de horror é conduzido com maestria pelas mãos de Tim Burton.

Com seu realismo gótico resplandecendo em vermelho sangue, essa versão da clássica peça da Broadway de Stephen Sondheim perde um pouco do tom cômico. Alias, não há espaço para risos, exceto aqueles nervosos, nessa estória humana de amor duas vezes-perdido e a capacidade destrutiva do horror da vingança.

SWEENEY TODD é um obscuro melodrama britânico que pode ou não ser baseado em fatos reais do séc XVIII. Mostra a historia de um barbeiro que foi banido de Londres e depois de tempos, volta como Sweeney Todd e, unindo-se com uma torteira, eles transformam em recheio de tortas as pessoas que são vitimas de sua sanguinolenta navalha.

O show de Sondheim, em 79, ocorreu dentro do contexto da Revolução Industrial, sua corrupção endêmica e avareza. Uma ópera mais satírica. Mas Burton e o roteirista John Logan tomaram o tema como um verdadeiro presente, onde puderam, sem culpa alguma, expor seus devaneios macabros. À exceção das seqüências de imaginário ou flashback de dias felizes, o filme assume um olhar monocromático que reflete na arquitetura de toda a cidade. Depp e Carter vestem-se austeramente de preto com grandes círculos negros em torno dos olhos, quase como bonecos da NOIVA CADÀVER.

Ao optar por atores dramáticos, ao invés de atores-cantores, Burton foi sábio no tom trágico e emocional da história, estreitando o foco a Sweeney; a Nellie Lovett, senhora das tortas de carne, flagelada pelo amor não correspondido de Sweeney; e Toby (Edward Sanders, que tem uma voz impressionante), um pequeno diabrete que ajuda os “confeiteiros”, mas é inocente em obter os ingredientes da torta.

Depp é o coração e entranhas do filme. Seu Sweeney é governado pela vingança. Apresentado com suas navalhas, que a Senhora Lovett guardou carinhosamente por todos os anos de exílio, ele agarra uma lâmina com mão firme e troveja: “Meu braço está completo outra vez”.

Sua raiva homicida centra-se no juiz Turpin (um sisudo Alan Rickman), um vil predador sexual que ordenou a prisão de Sweeney através de Beadle Bamford (um adulador Timothy Spall) para poder roubar sua esposa (Laura Michelle Kelly) e filha. Sweeney descobre que sua esposa se envenenou e Turpin tomara o bebê como fruto de luxúria (Johanna, uma macilenta Jayne Wisener). Anthony (Jamie Campbell Bower) é um jovem marinheiro que resgata Sweeney do mar, assim como, pretende fazê-lo também com Johanna em terra.

Assim, um triângulo de personagens obcecados emerge. Depp interpreta um Sweeney, tão focado na morte a sangue frio, que perde completamente a humanidade de ser. Carter como Nellie Lovet, com seu cabelo penteado aparentemente com um batedor de ovos, obcecada por Sweeney e o juiz, faminto por jovens mulheres.

Aliás, ele é o principal “se” do filme. Em palco, é um homem atormentado, esforçado com sua obsessão, mas aqui é um bandido melodramático conservando, em estoque, todos os defeitos humanos. Embora Rickman use todos os truques para persuadir o público que não é uma caricatura.

Os números musicais gotejam com audaciosa sagacidade e lirismo crítico de Sondheim. Uma canção de ninar transporta como ameaça. Uma valsa à conspiração. O cinismo através da crítica social de cada canção.

O sangue justaposto à música é altamente inquietante. Burton esfrega o sangue na cara do público, para fazê-los sentir toda a loucura e fúria destrutiva da obsessão de Sweeney. Atrelando com Depp, seu velho alter-ego, Burton faz de SWEENEY TODD um poço obscuro que arde em fúria e consome a si próprio. Com sua atuação surpreendente, Depp é um Sweeney Todd por gerações!

Spoiler Rating: 94
LBC Rating: ~

11.11.07

O Caçador de Pipas

Sabe aqueles filmes que não dependem de atores, efeitos ou gêneros, mas simplesmente lhe absorvem pela estória contada? O CAÇADOR DE PIPAS de Marc Foster, baseado no best-seller homônimo é exatemente esse tipo de filme.

O filme virou notícia por causa da cena de estupro que envolve um dos atores-mirins. Isso resultou em um atraso de seis semanas no lançamento nos cinemas, tempo necessário para que o estúdio tirasse seus três meninos-astros do Afeganistão, para protegê-los de possíveis retaliações locais. Controvérsias à parte, o longa-metragem é uma fiel adaptação do livro e deve ser reconhecido pela crítica, o público e em premiações pelo mundo.

A história é contada em três partes distintas. A primeira, ambientada no Afeganistão em 1978, mostra a amizade de dois garotos: Amir (Zekeria Ebrahimi), que mora com seu pai, Baba (Homayoun Ershadi), um rico e sofisticado viúvo, e Hassan (Ahmad Khan Mahmidzada), filho de um empregado de Baba. Os dois meninos de 12 anos têm uma forte ligação, graças a sua paixão em comum por filmes de ação americanos e por pipas.

Mas quando Hassan é agredido e violentado por um grupo de valentões do bairro – Forster mostra esta cena de uma forma discreta, mas eficiente –, Amir fica com medo e não consegue ajudar o amigo. Sua falta de atitude o persegue por anos, até mesmo depois que ele e seu pai se mudam para a Califórnia, nos EUA, após a invasão soviética.

Uma década depois, o agora adulto Amir (Khalid Abdalla) vira um aspirante a escritor. Quando ele conhece a filha de outro expatriado afegão, eles se apaixonam e se casam em uma cerimônia tradicional.

Na última parte, passada em 2000, Amir já é um autor bem-sucedido e feliz, apesar da morte de seu pai e de não ter conseguido ter filhos. Mas sua paz é interrompida depois que ele recebe um telefonema de um antigo amigo da família, que lhe conta que Hassan morreu e deixou um filho abandonado em um orfanato. Atormentado pela culpa, Amir viaja à perigosa Cabul para resgatar o menino e trazê-lo para os EUA. Os dois desenvolvem uma conexão surpreendente.

E assim, O CAÇADOR DE PIPAS age profundamente no público. Absorvendo-o em sua estória, por seu destino, pela maneira como esses indivíduos se tornam tão importantes que nos forçam a deixar de pensar em “afegãos” como uma simples categoria de corpos contados, nas trágicas noticias dos jornais.

O filme é narrado em sua maior parte em inglês, embora muitas cenas estejam em Dari, um dialeto afegão. A performance dos jovens atores que interpretam Amir e Hassan são extremamente naturais, convincentes e poderosas. São desempenhos que os “adultos” invejariam pela convicção e força. Ahmad Khan Mahmoodzada, como o jovem Hassan é particularmente impressionante, com sua seriedade quase melancólica.

E uma das áreas que o filme mais se sucede é na descrição do vôo da pipa. Sim, há efeitos especiais. Elas representam toda a liberdade e alegria que as pipas provocam em seus donos. E uma certa nostalgia paira no ar quando elas entram em cena. Nós estamos lá em cima...Nós estamos representados em cada pipa. É nossa infância representada ali. Contudo, há uma diferença fundamental entre Amin e Hassan. Talvez, a triste sabedoria dos olhos de Hassan venha da certeza que tudo cai por terra, cedo ou tarde...

Spoiler Rating: 91
LBC Rating: ~

Da Redação do Hollywood Reporter e Robert Edge

24.10.07

XXY


Para falar "das dúvidas de todo adolescente sobre que tipo de adulto será" e "dos dilemas de todos os pais sobre a melhor forma de orientar seus filhos", a diretora argentina Lucía Puenzo recorreu a uma personagem singularíssima em seu longa-metragem de estréia, "XXY".

Alex (Inés Efrón) nasceu com a ambigüidade biológica própria dos hermafroditas. Os pais do bebê, interpretados pelo astro Ricardo Darín e pela menos conhecida no Brasil Valeria Bertuccelli, recusaram a sugestão médica de castrar seu órgão sexual masculino, deixando a ele, no futuro, a definição de sua sexualidade.

É quando Alex completa 15 anos e vive seu primeiro amor que "XXY" se debruça sobre sua história, seus conflitos com o próprio corpo e suas dificuldades nos relacionamentos com os garotos de sua idade.

Puenzo afirma que situar o tema da "liberdade de escolha no mundo de hoje" e a discussão sobre "a identidade" na fase da adolescência lhe pareceu "um eixo temático interessante" desde que leu o conto "Cinismo", no qual o filme se baseia (escrito por Sergio Bizzio, marido da diretora), e não conseguiu mais "tirá-lo da cabeça".
Por ser também escritora e roteirista, Puenzo decidiu adaptar ela mesma o conto, num roteiro que, segundo conta, foi modificado na fase de ensaios, "mas acabou voltando para algo bem perto da forma original durante as filmagens".

"XXY" foi rodado numa praia do Uruguai. É para lá que a família de Alex se muda, com a intenção de afastar-se "de certo tipo de gente de Buenos Aires", como ressalta o personagem de Darín, num diálogo do filme. A mudança, contudo, não consegue evitar que Alex seja hostilizada por ser "diferente" e, ao final da trama, tenha que decidir entre impor-se, escancarando o confronto, ou calar-se diante de uma agressão.

O viés do embate social é, no entanto, o que Puenzo menos quis sublinhar em seu filme. "Havia o risco de as pessoas acharem que o filme é sobre uma anomalia. Não é. Essa é uma história de amor adolescente, algo que acontece a todo mundo", afirma a cineasta.

Spoiler Rating: 76
LBC Rating: ~

Por Silvana Arantes (Folha)

22.10.07

Angel


Na filmografia um tanto excêntrica de François Ozon (SOB A AREIA, 8 MULHERES), ANGEL surge como uma obra desconcertante. Baseado num romance da escritora britânica Elizabeth Taylor, o primeiro filme de Ozon falado em inglês mimetiza, não sem ironia, os melodramas de época hollywoodianos dos anos 30 e 40.

O entrecho: no início do século 20, num lugarejo obscuro do norte da Inglaterra, Angel (Romola Garai), filha da merceeira local, escreve compulsivamente histórias românticas.

Sonha tornar-se uma escritora rica e famosa para poder entrar num palacete que ela contempla através das grades do portão, a Mansão Paraíso. Seu sonho logo se realiza: ela vai para Londres, seus livros são um sucesso, ela se casa com um pintor aristocrata e boêmio etc. A Primeira Guerra Mundial acabará por esfacelar seu mundo de fantasia.

Ozon conta a história exagerando nas cores irreais do technicolor, no artificialismo das sobreposições de imagens (algumas cenas beiram o cômico dos filmes de Ivan Cardoso), na música melosa, nas frases-feitas dos diálogos.

Resulta daí um romantismo de segundo grau, influenciado por Douglas Sirk e matizado por Fassbinder, chamando a atenção do público para os mecanismos de construção da fantasia e da emoção.

O filme-referência óbvio é E O VENTO LEVOU: ANGEL está para a Mansão Paraíso como Scarlet O'Hara está para Tara. Ambas têm a obstinação egocêntrica que as torna maiores que a vida.

Spoiler Rating: 74
LBC Rating: ~

Por José Geraldo Couto (Folha)
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