18.7.07

Em Busca da Vida


Pela primeira vez um premiado com o Leão de Ouro não figurou no catálogo de Veneza. Isso porque Sanxia Haoren ("Still Life"), de Jia Zhang-Ke, entrou no concurso a título de "filme surpresa" e só foi conhecido e programado quando o festival entrava em sua segunda metade. Passou pela primeira vez depois das 23h, depois de uma maratona estafante durante o dia, o que significa que não foi visto por muita gente, nem mesmo por muitos críticos. Daí a reação um tanto fria com sua premiação.

No entanto, quem se deu ao trabalho de ver o filme não estranhou o Leão de Ouro concedido a Zhang-Ke, cineasta chinês da chamada "sexta geração", um habitué de Veneza - esteve aqui em 2000 com Plataforma e, em 2004, com O Mundo, belos filmes, que já haviam chamado a atenção do planeta cinema pelo modo como esse diretor, de 34 anos, trata de maneira crítica o desenvolvimento acelerado e caótico do seu país. Zhang-Ke, que não tem a obra distribuída em sua terra, disse que "queria continuar a fazer filmes independentes para retratar as classes mais desfavorecidas do meu país".

Pronto, alguém precisava falar isso: a separação de classes está de volta na China e o desenvolvimento econômico se faz à custa de graves contradições. Uma delas, retratada no filme, mostra como a construção de um dique no rio Yangtze fez desaparecer cidades inteiras e submergir alguns milênios de cultura, deixando à deriva os habitantes mais pobres. Há coisas a serem salvas, e outras que devem ser deixadas para trás. O filme acompanha pessoas deslocadas no mundo e que perderam as suas referências. Preço do progresso? Pode ser. Mas Zhang-Ke sugere que a China, iludida pela utopia da globalização, talvez esteja empenhando sua alma na competição global.

Curioso é que "Still Life" ("Ainda Vida", como os italianos traduziram) se assemelha a um filme de ficção de face acentuadamente documental. Mais curioso ainda é que Zhang-Ke concorria também na mostra Horizontes com o documentário Dong, exato complemento do seu filme de ficção. Neste, o cineasta acompanha o pintor Liu Xiao-Dong em sua visita à barragem que logo fará submergir a região de Feng-jie, com seus dois mil anos de história. Na mesma região da ficção, o pintor Xiao-Dong retrata 12 operários de uma comunidade que em breve será varrida do mapa chinês.

Spoiler Rating: 75
LBC Rating: 80

Por Luiz Zanin Orocchio (Estado de São Paulo) & Paolo Mereghetti (Corriere Della Sera)

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