2.3.08

Rambo IV

Quem já conhece a série de filmes protagonizada por Sylvester Stallone já sabe o que esperar de RAMBO IV. Porém, obviamente, seria impossível fazer um herói igual ao de 20 anos atrás. Afinal, nossa estrela está com 61 anos e até confessou o uso de hormônios durante as filmagens para ganhar massa muscular. Para compensar a idade do astro, uma enxurrada de sangue invade a tela, tornando o filme mais violento da franquia – o que não é sinônimo de qualidade. Além de protagonizar, Stallone está à frente da direção, roteiro e produção do longa-metragem.

O solitário John Rambo (Stallone) parece ter desistido de lutar contra seus conflitos interiores e vive isolado no norte da Tailândia, levando uma vida simples e solitária nas montanhas. Apático e alheio aos problemas que o cercam, como a guerra civil na Birmânia, ele sobrevive pescando e capturando cobras venenosas para venda. Um grupo de missionários fica sabendo sobre as habilidades do herói norte-americano e pede para levá-los pelo rio Salween até os refugiados da tribo Karene, já que o caminho por terra se tornou extremamente perigoso por causa das minas terrestres.

Rambo reluta em aceitar por não acreditar que alguém possa acabar com uma guerra civil que já dura 60 anos. Mas Sarah (Julie Benz) consegue acender o espírito de justiça que estava adormecido no desiludido herói e finalmente consegue o melhor guia da região. Porém, o grupo é seqüestrado pelo exército birmanês e Rambo é o único capaz de resgatá-los. Para isso, conta com a ajuda de um grupo de mercenários formado por soldados americanos, contratados pelo pastor da igreja dos missionários.

Como você pode ver, o enredo não é nada complexo, sobrando espaço – aliás, muito espaço – para a matança que imortalizou o personagem de Stallone. Afinal, os filmes podem ser ruins, fracos, sem sentido, com péssimas atuações, mas quem nunca assistiu? Quem nunca soltou alguma frase dita por Rambo? Ou mesmo o imitou de alguma forma, mesmo que fosse amarrando uma faixa vermelha na cabeça quando criança? Pois é esse o efeito que o personagem causa. Muitos falam mal, mas não deixam de conferir as aventuras do herói. Nem que seja na televisão, sem gastar nenhum dinheiro com isso. RAMBO IV não é o tipo de filme que entra na lista dos melhores, longe disso, mas é a continuação de um clássico.

Uma coisa não dá para negar: os efeitos visuais são bem-feitos, fazendo com que o público feche os olhos para cabeças voando, pernas explodindo e corpos dilacerados. Também não podemos tirar o mérito da direção de Stallone. Pois, por mais simples e vazio que o filme seja, não é tão fácil criar seqüências de ação com explosões e tiros para todos os lados sem atropelar as cenas e confundir a cabeça de quem assiste.

Se você acredita que o velho Rambo merece seu prestígio, é bom se preparar para cenas fortes e cruéis. Não somente por conta de seus brutais ataques ao inimigo, mas pela dura realidade de uma guerra civil, com direito a pedaços de corpos voando o tempo inteiro, inclusive de mulheres e crianças. Lembrando que o banho de sangue, associado a uma situação real, é muitas vezes chocante.

Spoiler Rating: 53
LBC Rating: ~

Por Livia Brasil - Yahoo Movies

27.2.08

Chega de Saudade

Laís Bodanzky gosta de fazer filmes como quem olha pelo buraco da fechadura. Foi com este espírito que a cineasta realizou CHEGA DE SAUDADE, seu segundo longa-metragem – o primeiro foi BICHO DE SETE CABEÇAS - que teve sua estréia (ovacionada) no Festival de Brasília, onde ganhou os candangos de Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Direção e Melhor Roteiro.

CHEGA DE SAUDADE conta, numa única noite, várias histórias vividas pelos freqüentadores de um salão de baile da terceira idade. Com muita música e dança, os acontecimentos fazem o espectador se sentir dentro da vida pulsante do baile.

Circular como o salão, a trama gira em torno de Marici (Cássia Kiss), e Eudes (Stepan Nercessian), que vão junto ao baile. Marici faz amizade com Bel (Maria Flor), uma jovem "estrangeira" no salão, que namora o rapaz que cuida do som, Marquinhos (Paulo Vilhena). Eudes tira Bel para dançar, o que provoca reações diversas.

Enquanto isso, Alice (Tônia Carrero) e Álvaro (Leonardo Villar) enfrentam as limitações da idade, sem abandonar o salão. E Elza (Betty Faria) chega excitada ao baile, cheia de expectativas e com uma amiga de primeira viagem a tira colo - Nice (Mirian Mehler).

As histórias se misturam com outras, não menos vibrantes. A libido de um par de dançarinos de tango quase transborda a tela; duas mulheres (a esposa e a amante) duelam pelo mesmo dançarino; um gordo dança sozinho; o garçom costura tudo, como quem usa linha e agulha.

A trilha transita do circuito samba-rock ao bolero dos salões tradicionais. Do forró, ao fox-trot, com grande estilo. CHEGA DE SAUDADES são vários bailes, como são vários os personagens misturados no filme. "Trata-se de uma grande salada, bem temperada", comenta a diretora. E cada canção, conduzida com maestria por Elza Soares e Marku Ribas, explicita a narrativa, direta ou indiretamente

A fotografia de Walter Carvalho é pulsante. Com a câmera amarrada ao corpo, ele e seu equipamento dançaram junto com os atores. O resultado é imersivo. Autonomia de 360 graus o tempo todo.

Sutil e empolgante, o filme, aos poucos, faz o espectador se sentir íntimo dos personagens. Um filme convidativo que ganha o público rapidamente. CHEGA DE SAUDADE cria uma sensação de euforia, de descoberta, de liberdade. Uma sensação deliciosa de ver, ouvir e, porque não, dançar...

Spoiler Rating: 90
LBC Rating: ~

18.2.08

Os Indomáveis

O western volta a ter um encanto especial e surpreendentemente emotivo com OS INDOMÁVEIS (3:10 TO YUMA). E apesar de ser um faroeste, quem não gosta do gênero também tem bons motivos para ir ao cinema, pela história de dois homens (brilhantemente interpretados por Russel Crowe e Christian Bale) que optaram por caminhos distintos na vida, mas que o destino se encarrega de juntá-los.

Dan Evans (Christian Bale) é um homem honesto que sobreviveu à Guerra Civil com uma lesão na perna e uma pequena pensão. Contra as adversidades, Dan luta pelas suas terras, que vai sendo massacrada pelos credores locais, e vai perdendo o respeito do seu filho adolescente - que vê nos bandidos e vilões a bravura que não vê no pai.

Quando o implacável e lendário bandido Ben Wade (a quem Russell Crowe dá um certo charme, carisma e mistério) é capturado num assalto, Dan Evans voluntaria-se para ajudar o grupo de escolta para a cidade de Contention - de onde parte o trem para Yuma, às 3:10, onde Ben será entregue à justiça e julgado.

Os homens de Ben, onde está o temível Charlie Prince, tudo farão para tentar resgatá-lo e, apesar de capturado, Ben é ameaça letal. Confiante e astuto, ele tira partido da mais ínfima fraqueza humana. Mas a viagem infernal será também de autodescoberta para o bandido e o homem honesto que irão se ver numa encruzilhada.

Trata-se de uma historia conhecida, um remake do filme homônimo de 1957. Mas aqui, o diretor e roteirista James Mangold (JOHNY E JUNE) usa um argumento soberbo, envolvente e humano. Unido com um ritmo rápido e uma trilha musical intensa de Marco Beltrami (Indicado ao Oscar, assim como o filme pela mixagem de som).

Como um bom faroeste de Howard Hawks, OS INDOMÁVEIS acerta ao contar a história de uma amizade torta, com ótimos coadjuvantes, como o veterinário que entra para o grupo da escolta (Alan Tudyk) ou o velho caçador de recompensas vivido por um magistral Peter Fonda. Mas, ao tentar imitar a grandiosidade de Sergio Leone, Mangold se dá mal.

É a extrema indecisão de registros que prejudica OS INDOMÁVEIS, esvaziando-o da pulsação que alterna tempos mortos e ação - e que tornou grandes os melhores faroestes.

Spoiler Rating: 81
LBC Rating: ~

14.2.08

Cherry Blossoms - Hanami


Um filme alemão de baixo orçamento promete ser um dos maiores sucessos do ano. CHERRY BLOSSOMS – HANAMI (Flores de Cerejeira - Hanami) foi apresentado em competição em Berlim e nele a conhecida diretora Doris Dörrie ajudou a fazer praticamente de tudo na produção. O principal suporte artístico do filme está na extraordinária interpretação de Hannelore Elsner. O seu par no filme é também o ótimo (e desconhecido em cinema) Elmar Wepper, que Doris Dörrie foi buscar da televisão onde atuava em produções igualmente baratas.

O curso da história é muito comovente ao mesmo tempo em que faz críticas ácidas ao jeito do ser alemão, em especial sobre os alemães da Bavária, considerados mais metódicos e tradicionalistas. Quem quiser pode ver também referências ao passado alemão nazista, onde a Bavária foi o principal ‘berçário’, e cujo cinema mitificava os símbolos derivados das montanhas. O fetiche da montanha é transferido aqui ao monte Fuji do Japão.

Começa o filme com um médico revelando a uma mulher que o seu marido está com uma doença terminal. Ela não vai contar nada para o marido. Vai tentar estimulá-lo a realizar seus últimos sonhos enquanto é tempo. Aí entra o espírito alemão, regrado, metódico. Ele prefere esperar mais um ano até se aposentar. E "montanha por montanha, na Bavária também as temos, para que ir ao Fuji, mesmo que seja a pretexto de ver o filho que está lá a trabalho?", ele argumenta.

Aos poucos vamos entrando nesta viagem iniciática. A primeira viagem que ele aceita fazer é para Berlim, onde vivem seus dois outros filhos e netos. Os pais, Trudi e Rudi, são considerados um estorvo para os filhos e ninguém tem tempo para sair com eles. Mas Trudi consegue ao menos ver uma performance de teatro Butô, que ela adora e Rudi não suporta. É quando acontece o inesperado. Na segunda viagem que ele aceita fazer com a mulher, ir a um hotel beira-mar no Báltico, Trudi morre. Que ninguém fique zangado com a leitura deste resumo. A própria Doris Dörrie é quem revela estes acontecimentos na sinopse do filme.

O que realmente está em questão são os elementos emocionais que o espectador irá compor a partir de então. Com Rudi sozinho, sem saber que também está para morrer, ele decide viajar finalmente ao Japão. Mais para realizar o desejo da mulher já morta, do que para ver o filho. Veremos então a transformação de um homem seco e rude em um ser emocional que aos poucos irá perceber o que fez de errado e estúpido na vida. Coisa rara na vida de pessoas que envelhecem aguçando mais que tudo suas contradições. Por isso a comoção que provoca nos espectadores.

O estímulo de Doris Dörrie é como dizer "faça antes de seja tarde". E o tratamento respeitoso que ela dá à cultura japonesa, mesmo sendo crítica, corrige os desvios do filme anterior de choques culturais com o Japão, a comédia de Sofia Coppola ENCONTROS E DESENCONTROS. Mas o filme alemão também é cruelmente realista. As últimas palavras dos filhos sobre os seus pais fazem ver que os ciclos de insensibilidade seguem se repetindo. Mesmo que o jeito de mistificar uma montanha em nossos dias seja distinto.

Spoiler Rating: 75
LBC Rating: ~

Por Leon Cakoff

Caos Calmo


CAOS CALMO não seria o novo filme de Nanni Moretti. Foi dirigido por Antonello Grimaldi e adapta um romance de Sandro Varonesi, mas poderia ser.

A fita de Antonello Grimaldi é uma espécie de “variação” sobre a matriz do luto e da dor dO QUARTO DO FILHO. Poderia se chamar O BANCO DO PAI, porque é num banco de jardim que Moretti passa o filme, como um executivo de televisão, cuja mulher morreu inesperadamente. Ele internaliza o vazio passando os dias sentado no tal banco de jardim.

É uma espécie de “Moretti light”, igualmente inteligente no modo como trabalha com sutileza a convenção do melodrama, mas um pouco convencional, mais enfabulado e menos inspirado - talvez seja injusto fazer a comparação, mas a presença do ator/diretor no papel principal (bem como sua colaboração no roteiro) a torna inevitável.

E a verdade é que o filme de Antonello Grimaldi não desmerece os pergaminhos de seu ator, atento e generoso, impecável na placidez do seu homem que reage à maior dor da sua vida recolhendo-se para dentro de sua concha. Sem dúvida, é um filme que merece um olhar mais atento.

Spoiler Rating: 82
LBC Rating: ~

13.2.08

Standard Operating Procedure


Depois que fotos dos abusos cometidos pelo Exército americano com prisioneiros de Abu Ghraib (Iraque) se tornaram um escândalo internacional, uma investigação determinada pelo governo dos EUA separou-as em dois grupos.

De um lado, ficaram as que configuravam inegavelmente um ato criminoso, caso das imagens de abuso sexual. Na outra parcela foram parar as fotos com práticas consideradas aceitáveis nos padrões de interrogatórios. Eram as cenas de operação padrão (STANDARD OPERATING PROCEDURE), expressão que o cineasta Errol Morris tomou como título de seu novo documentário, sobre os eventos de Abu Ghraib.

O filme foi exibido em competição no Festival de Berlim e é provavelmente o mais impactante título da disputa. Morris entrevista alguns dos principais personagens (abusadores) das fotos, que foram julgados, condenados, cumpriram sentença por seus crimes e hoje estão livres.

Eles comentam suas vidas antes, durante e depois de Abu Ghraib. A soldado Lynndie England, célebre pela pose em que subjuga um prisioneiro nu, atado a uma coleira, diz que tomou parte nos abusos porque estava cega de amor.

England namorava o soldado Charles Garner, apontado como mentor dos abusos. Condenado a dez anos de prisão, Garner é proibido pelo governo dos EUA de dar entrevistas, conforme informa o filme. "Garner sabia falar o que você queria ouvir. Eu tinha 20 anos, e ele, 39. Ou seja, 19 anos de experiência a mais do que eu", afirma England no filme.

A soldado Sabrina Harman comenta uma "operação padrão" que ela conduziu e registrou em foto. Ela coloca o preso encapuzado de pé sobre um caixote de madeira e ata fios às suas mãos. Avisa que, se ele descer do caixote, será automaticamente eletrocutado. "É garantido que ele continuaria ali, de pé. Mas os fios não estavam ligados à energia. Eram só palavras", diz.

Trechos do diário que Harman mantinha em Abu Ghraib e seguiu escrevendo durante seu processo pontuam o filme, lidos por ela, que não se arrepende, mas desabafa: "O foda disso tudo é que todo mundo [no Exército] sabia de tudo".

Morris fez um documentário em que os abusos de Abu Ghraib são narrados em primeira pessoa. E fez também um filme sobre como os sujeitos mais graduados dessa história mantiveram-se ocultos.

Spoiler Rating: 90
LBC Rating: ~

Por Silvana Arantes (Folha de São Paulo)

12.2.08

Happy-Go-Lucky


HAPPY-GO-LUCKY é o nome do filme de Mike Leigh - Uma expressão idiomática britânica que descreve o tipo de pessoas que passam pela vida sem preocupação, sem problemas, sem "ralação", como se vivessem no melhor dos mundos.

E Poppy é assim: Uma professora solteira em Londres que nunca se contagia pelo mau-humor de seu rabugento diretor, sua dominadora professora de flamenco, um balconista mal-humorado numa livraria ou sua irmã, grávida e infeliz. Sempre vestida de cores berrantes, sacolas friques, brincos vermelhões e botas de pele de cobra, ela anda por Londres como quem salta por campos floridos. E quando lhe roubam a bicicleta (logo no começo do filme) o pior que ela consegue dizer: "Ora bolas. Nem tive tempo de me despedir dela."

Poppy tem tudo para nos irritar - Como é possível que alguém seja tão irresponsável? Pensamos que Mike Leigh, cansado do niilismo rebarbado de seus filmes anteriores, começa a envelhecer... Mas não vale a pena... No final, percebe-se que Leigh não envelheceu, nem ficou sentimental

O segredo é que a aparente cabeça no ar de Poppy mascara os pés bem assentados na terra. É uma estratégia de sobrevivência tão válida como qualquer outra: Aproveitar cada dia, ver sempre o lado bom das coisas, deixar-se deslumbrar pelos pequenos nadas do quotidiano. De cabeça levantada e sorriso nos lábios.

Poppy é Sally Hawkins que brilha muito, muito, muito alto com uma interpretação extraordinária que escora todo o filme sem esforço. À sua volta temos o habitual círculo de coadjuvantes impecáveis. E, como no melhor Leigh, temos a sensação de não assistir um filme mas sim o cotidiano; não vemos personagens, mas gente de carne e osso.

Spoiler Rating: 90
LBC Rating: ~

Plus Tard Tu Comprendras


A atriz francesa Jeanne Moreau, 80 anos, diz que trabalhar em seu novo filme sobre a luta de uma família para falar do Holocausto trouxe de volta memórias de sua própria infância durante a ocupação nazista.

PLUS TARD TU COMPRENDRAS ("Mais Tarde Você Entenderá"), do diretor israelense Amos Gitai, conta a história de Victor, um homem de meia idade que tenta convencer sua mãe (Moreau) a falar sobre sua infância e a morte de seus pais em Auschwitz.

"Foi muito intenso", disse a elegante Moreau. "Eu nasci em 1928. Vivi a ocupação. Na escola, eu tinha amigas que usavam a estrela amarela na roupa e que desapareceram. Isso fazia parte do cotidiano."

Sua personagem no filme, Rivka, tem dificuldade em colocar em palavras o horror do passado, apesar de seu filho pressioná-la para isso.

Uma cena inicial mostra Rivka em 1987, preparando uma refeição enquanto a televisão mostra o julgamento de Klaus Barbie, o "açougueiro de Lyon", considerado responsável pela tortura e morte de centenas de civis na era nazista, quando foi chefe da Gestapo em Lyon.

O filho de Rivka, Victor, acompanha o julgamento pelo rádio em seu trabalho. Mas, quando mãe e filho se encontram para jantar no apartamento de Rivka, no mesmo dia, o assunto do julgamento vira tabu.

O escritor Jerome Clement, cujo romance autobiográfico serviu de base para o filme, disse que este mostra como gerações diferentes se esforçam para encarar determinados capítulos do passado.

"Não é uma história da guerra. É uma história de hoje. Uma história do silêncio, sobre como, após a guerra, os pais não quiseram falar sobre certas coisas, e sobre como falamos com nossos próprios filhos, hoje", disse ele.

Enquanto Victor e Rivka se esquivam da questão da morte pavorosa dos pais dela, o filme também mostra como o resto da sociedade francesa encarou esse capítulo na história do país.

O ex-presidente Jacques Chirac reconheceu oficialmente em 1995, pela primeira vez, a cumplicidade francesa na deportação de judeus durante a guerra. Mas foi apenas após uma decisão judicial de 2001 que se tornou possível processar as autoridades francesas, pedindo indenização.

Amos Gitai disse que a questão da colaboração de franceses com os nazistas não foi muito tratada no cinema francês até hoje. "Se este filme puder contribuir para que esse assunto seja aberto, será bom. Seria tarde, mas nunca é tarde demais."

Spoiler Rating: 70
LBC Rating: ~

Da Agência Reuters

My Winnipeg


Para o cineasta autodidata e professor universitário Guy Maddin, o tempo não afeta o cinema. Pelo menos não o seu cinema que segue fiel às linguagens experimentadas pelos pioneiros na virada do século 19 para o 20. O tempo, nos filmes de Maddin tem influência e decisão somente sobre as questões da memória. E é este precioso elemento que dá vida aos seus filmes quase mudos. Desta vez, Guy Maddin ousou ainda mais ao narrar ao vivo o próprio filme MY WINNIPEG.

No ano passado Guy Maddin ousou igual com o longa BRAND UPON THE BRAIN!, que teve em Berlim a narração de Isabella Rossellini e, em São Paulo, ainda melhor, de Marília Gabriela. Rossellini, aliada ao produtor de Guy Maddin, Jodi Shapiro, abriu a sessão de MY WINNIPEG com uma série de curtas GREEN PORNO, com sátiras bem humoradas sobre a vida sexual dos insetos.

Winnipeg é a cidade natal de Maddin. "Antes de se falar em mudança climática, Winnipeg era considerada a segunda cidade mais fria do mundo; espero que volte a ser de novo com a Sibéria uma das primeiras cidades congeladas", disse o cineasta depois da exibição do filme em Premiere em Berlim. Mas não é só do frio que MY WINNIPEG tem saudades. Como sempre Guy Maddin faz um filme triste e espirituoso como quem alerta também sobre os malefícios da velocidade que altera o tempo natural das coisas e das cidades que se imolam com símbolos da modernidade. Maddin reclama da ausência dos valores simples da vida e, sobretudo, da perda de inocências. Com o seu cinema único ele sugere resgatar a simplicidade da vida olhando para as gerações passadas, com respeito à natureza, à memória e aos sentimentos como valores essenciais e suficientes. Guy Maddin, mais que um cineasta narrando ao vivo seu filme no palco do antigo cine Delphi, mostrou-se um comovente missionário.

Spoiler Rating: 88
LBC Rating: ~

Por Leon Cakoff

Sparrow


Que outro diretor ousaria fazer um filme policial em que a música substitui o diálogo, tudo fica por explicar no fim e o público ainda sai com um sorriso idiota de felicidade?

Pois assim é Johnnie To. E assim é seu cinema, cuja filmografia competiu nos últimos 12 meses nos três principais festivais de cinema: SPARROW (Em Berlim), TRIANGLE (Em Cannes) e MAD DETECTIVE (Em Veneza). E SPARROW é o mais deslumbrante momento de cinema que Berlim viu esse ano.

SPARROW é a cristalização de uma ideia: Puro fluir, Puro movimento, Pura narrativa visual. Mais: o domínio escandalosamente virtuoso que Johnnie To tem do écrã panorâmico, a precisão da sua encenação faz de SPARROW uma espécie de bailado cinético coreografado ao milímetro, herdeiro direto dos grandes musicais escapistas da MGM. Embora não haja canções. Nem bailados. Mas há muita música (uma espécie de sinfonia lounge-retro a cargo de Xavier Jamaux e Fred Avril) - e To nos dá também muita música.

Uma música que faz nos interessar por uma história que praticamente não existe e serve apenas de pretexto para uma série de "tours-de-force" visuais de cortar a respiração. SPARROW ("Pardal") é um cartão postal nostálgico de Hong Kong.

O filme, em competição em Berlim, trata de um bando de batedores de carteiras liderados por Kei, que se fascinam por uma jovem, bela e misteriosa, que está sempre fugindo de alguém. Quando descobrem que ela foge de um grande chefão da máfia, não conseguem resistir à tentação de ajudá-la, não importando o risco.

SPARROW é um cinema raro com heróis e vilões e mulheres fatais. É Fred Astaire deixado à solta numa Hong Kong tão artificial como se tivesse sido reconstituída em Hollywood, filmada como Steven Soderbergh a homenagear Vincente Minnelli: elegância, leveza, graça, agilidade, descontração, deslumbramento. É uma sensação de permanente deslumbramento - como se Johnnie To estivesse a inventar o cinema à nossa frente. Não está, mas não faz mal: o que interessa é a imagem.

Spoiler Rating: 87
LBC Rating: ~

11.2.08

CSNY, Déjà Vu


A música em Berlinale não foi só Rolling Stones. Muito longe dos holofotes da fama e das capas dos jornais, passou em Berlim um tal de Bernard Shakey, um dos maiores compositores de toda a história do rock.

Bernard Shakey é o pseudonimo que Neil Young usa quando decide, de tempos em tempos, brincar de cinema. CSNY, DÉJÀ VU é, muito sucintamente, uma "collage" de imagens da bombástica turnê que os Crosby, Stills, Nash & Young fizeram em 2006 contra a Guerra do Iraque e o presidente Bush. Também sexagenários, como os Stones, os CSNY (David Crosby, Stephen Stills, Graham Nash e Neil Young) foram à estrada com sua turnê, declarando guerra aberta ao governo de Washington, recuperando velhas canções anti-guerra do Vietnã misturadas com canções recentes, como a muito sugestiva "Let's Impeach the President", escrita em 2006 por Neil Young para o seu álbum de estúdio "Living With War".

O filme é o que é, sem muitas pretensões. Diz o que tem a dizer sem papas na língua, como Young sempre o fez. É suficientemente educado e democrático para deixar no ecrã a divisão do público que a turnê provocou nos EUA e suficientemente terno para dar a perceber que os CSNY serão adorados pela América para sempre.

Spoiler Rating: 63
LBC Rating: ~

Por Francisco Ferreira (Expresso)

Gardens of the Night


Leslie está em San Diego, California, é uma adolescente de 15 anos e com medo, se dirige a um centro de abrigo. Ao funcionário do centro (John Malkovich), ela diz que não vê os pais desde os 8 anos e fala de um tio, Alex, e de um irmão, Donnie. O "flashback" é terrível e vem logo depois, esclarecendo o mistério: Alex, afinal, é um "falso tio". Um pedófilo que raptou Leslie a caminho da escola quando ela tinha 8 anos, convencendo-a que seus pais não a queriam ver mais.

E assim, dos 8 aos 15, Leslie será escrava dessa rede de pedofilia que o filme se encarrega de mostrar e exibir em todas as suas nuances, tornando-se obsceno demais para o público que já estarrecido pelo tema, se choca mais ainda com as cenas ardentes.

É claro que tudo pode ser filmado pelo cinema, mesmo algo tão repugnante como a pedofilia: Tudo depende de como se filma. Damian Harris quis deixar um documento de denúncia sobre crianças raptadas nos EUA e redes de pedofilia, sublinha as suas boas intenções, defende-se com realidade (foi isso o que fez na conferência de imprensa) mas o "olhem, isto existe!" não chega.

GARDENS OF THE NIGHT é, afinal, um filme lamentável, com um olhar tão sórdido quanto o seu tema.

Spoiler Rating: 69
LBC Rating: ~

Por Francisco Ferreira (Expresso)

Julia


JULIA do francês Erick Zonca apresenta uma perseguição policial repleta de ritmo e drama. Esse é o segundo filme assinado por Zonca, dez anos após A VIDA SONHADA DOS ANJOS, um retrato desencantado e perturbando de dois jovens, que deu a Natacha Régnier e Elodie Bouchez o prêmio de interpretação feminina no Festival de Cannes.

A britânica Tilda Swinton, indicada para o Oscar de melhor atriz coadjuvante por CONDUTA DE RISCO, vive o personagem-título do filme, uma comédia dramática que dá lugar a um thriller quando uma mulher que já foi bela e sedutora, mas que se encontra à beira de um colapso físico devido ao alcoolismo - papel que cai como uma luva a Swinton -, seqüestra e maltrata uma criança de oito anos, de mãe mexicana. Kate del Castillo é a mãe que, após perder a guarda do filho também devido ao alcoolismo, pede a Swinton que o seqüestre.

As duas se conhecem em sessões de alcoólatras anônimos e a princípio não simpatizam uma com a outra, a não ser por um motivo: cada uma vê na outra um meio - para ganhar dinheiro e recuperar a criança - respectivamente.

Zonca foi duramente criticado na entrevista coletiva em relação à originalidade do filme, tido por alguns especialistas como derivado de GLORIA, de John Cassavetes. O filme é um fiasco completo, mesmo assim, Swinton salva várias cenas, decidida a ganhar um Oscar.

Spoiler Rating: 67
LBC Rating: ~

Das Agências EFE e AFP

Lake Tahoe


Tudo começa com um carro que bate num poste e um motorista adolescente que vai à procura de uma mecânico para o consertar. Daí em diante, temos uma odisseia burlesca em câmara lenta quase-quase-parada onde nada parece acontecer.

LAKE TAHOE, segundo filme do mexicano Fernando Eimbcke (TEMPORADA DE PATOS), é um daqueles filmes que nenhum distribuidor sabe como vender... Os diálogos são monossilábicos e a câmera fica estática durante 99,99% do tempo.

É uma receita para o desastre ou para a seca. Mas nas mãos de Fernando Eimbcke, é uma revelação. Nada nos 85 minutos do filme é casual, tudo faz parte do empenho de refletir como cada um transporta sua dor.

A mão da mãe aparecendo atrás da cortina da banheira, fumando, chorando e rodeada de álbuns de família, bastam a Eimbcke para refletir o desespero da mulher. Para a projeção no cinema do bairro de um filme de Bruce Lee, o diretor recorre a outra representação mínima: a tela escura, com os ruídos de kung-fu ao fundo.

E assim Eimbcke retorna à Berlim com sucesso. Uma cidade que havia visitado antes, como convidado do Talent Campus, oficina para jovens, onde rodou seu primeiro longa. Berlim não errou em convidá-lo...

Spoiler Rating: 82
LBC Rating: ~

Da Agência EFE

Elegy


ELEGY tem direção da espanhola Isabel Coixet e conta com a musa Penelope Cruz no elenco. Aqui ela faz o papel de Consuelo, uma rica estudante, filha de cubanos exilados nos EUA, que se apaixona por seu professor de literatura (Ben Kingsley), trinta anos mais velho.

Como Almodóvar em VOLVER, Coixet faz de Cruz uma atriz muito mais radiante e sedutora na tela. E como se fosse uma confidência entre amigas, o ambiente escuro e paranóico da casa do professor serve para desinibir Penélope fazendo cair o queixo do espectador com tanta generosidade íntima. A atriz é comparada a "Maya Desnuda", do famoso quadro de Velázquez. Seus seios são cantados como os mais lindos do mundo e um dos quadros abusa do ridículo ao imitar revistas masculinas. A atriz aparece despida, de bruços, enquanto a câmera passeia sua lascívia por seu corpo até... terminar nos seus pés que calçam sapatos de saltos finos cor de vinho.

Quem leu o livro do americano Philip Roth ("The Dying Animal") diz que o original é mais picante. Ben Kingsley e Dennis Hopper interpretam dois amigos que se aconselham o tempo todo como agir com mulheres, mas nenhum segue o conselho do outro. E eles também estão ótimos no filme de Coixet. O professor imagina sempre que vai perder a namorada e o complexo da idade começa a corroer a sua mente. A reviravolta final, bem do estilo da diretora, segue parecendo uma boa oportunidade para alçar ainda mais Penélope Cruz ao altar das grandes musas do cinema.

ELEGY não consegue evitar um certo ar burguês acomodado, mas há pequenos papéis cruciais de Peter Sarsgaard, Patricia Clarkson e Dennis Hopper, um sábio uso da trilha musical (muito Bach e Satie) e, sobretudo, há Ben Kingsley...

Spoiler Rating: 70
LBC Rating: ~

Por Leon Cakoff e Agência Reuters
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